Opinião

Sobre malas e bagagens

Fez ontem um ano que arrumei, pela segunda vez, a vida em meia dúzia de malas de viagem. Estes últimos dias foram acompanhados de uma certa melancolia, tão típica de quem faz balanços e reflexões. Sou uma fã assumida de retrospectivas, gosto de espreitar o passado com o olhar de quem quer aprender e celebrar. Neste último ano, aprendi também a olhar para o passado com a gratidão que ele merece e isso devo às pessoas que foram cruzando o meu caminho.

Quando decidimos mudar-nos com toda a bagagem física e emocional que ao longo de uma vida vamos guardando, vemo-nos forçados a ter de fazer escolhas. Aprendi que é sempre mais fácil viajar com menos para podermos trazer mais. Guardar espaço para tudo o que vamos juntar.

Descobri que mudarmos para um sítio desconhecido é também passarmos a gostar de nos perdermos. Até que as ruas novas sejam velhas e não deixem dúvidas na direcção a seguir, são muitas as vezes que perdemos o norte, literal e figurativamente. Mas isso deixa de ser um problema, porque perdermo-nos faz agora parte do caminho por que tanto ansiamos ver traduzido em familiaridade. 

Ainda que muitas vezes as viagens sejam enriquecidas com a vontade de nos encontramos com o que é diferente, descobri que somos mais semelhantes do que o seu contrário. Mudam os hábitos, os costumes e por vezes os valores mas liga-nos a mesma dimensão humana, que só quer ser feliz. 

Podiam ter sido muitas as razões que me levariam a emigrar. Tantas quantas as pessoas com que me fui cruzando ao longo do tempo. Carregamos em nós todas as experiências das pessoas que vão e que ficam. Não vindo ao caso os reais motivos, apetece-me celebrar todas as pessoas novas que vi entrarem na minha vida e ainda mais todas aquelas que mesmo a distância quiseram ficar.

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.