Crónica

Do lugar das memórias felizes_ Parte II

Quando lhes disse que me ia embora no dia seguinte: “como assim? ” perguntou depois um deles. A partir daquele momento o luar, as guitarradas e a fogueira no areal da praia passaram imediatamente para segundo plano, as perguntas sucederam-se a uma velocidade estonteante. Ficou por responder como é que eu ia faltar à grande festa do verão algarvio no “t” dos pequeninos, cuja temática não recordo mas deveria ser a ausência de cor (festa branca) para ir a um bailarico de aldeia?! 

Aquele era o auge das férias dos meus amigos no Algarve, a possibilidade das primeiras festas, os últimos quinze dias nas toalhas e nos banhos de mar, as conversas versavam sobre as roupas que iam vestir, as peças que iriam buscar aos roupeiros dos pais, as boleias também com os pais que nessa noite teriam a correspondente festa no “T” dos crescidos. Quando a fogueira já estava convertida em pequenas brasas, um deles puxou-me para o lado e perguntou-me: “Que encanto tem um bailarico da aldeia, com uma viagem de sete ou oito horas de autocarro pela frente? Saint Daisys Party?!, a sério que vais mesmo?” Para este meu amigo, nascido e criado a sul, todos os nomes podíam e devíam ser internacionais, assim como os menus dos restaurantes da sua terra. Não me dei ao trabalho de lhe responder, ele não iria compreender e eu talvez não conhecesse adjetivos internacionais em número suficiente para lhe explicar que a minha escolha talvez não fosse bem uma escolha, e fosse antes uma espécie de chamamento inevitável. 

O corpo amarrotado e cheio calor da viagem de sete horas que fiz sozinha, refez-se logo que cheguei. A vila estava toda enfeitada com arcos luminosos, na praça havia uma estaca central de onde saíam vários cordões de flores de papel que se iam agarrar aos prédios em volta, a luz dos arcos projetada sobre estas flores de papel produzia um efeito alucinogénico nos paralelos do chão, acessível a todos, sem necessidade de usar nenhuma substância química, visível à noite e de dia também, quando projetadas pelo sol. Aos amigos de sempre juntavam-se novos amigos, alguns filhos de emigrantes que vinham pela primeira vez conhecer a terra dos pais e dos avós.

O sol já dava pelo joelho, mais ainda pude ver a procissão, naquela altura já me tinha arreliado irremediavelmente com a fé às divindades, mas isso não me impediu, nem me impede de me emocionar com a fé dos outros, acho sempre comovente a forma como as pessoas se organizam, como se dedicam para venerar os seus deuses, e a vila enfeita-se toda, são as colchas às janelas, é o melhor fato para ver a Santa, são os sapatos que magoam, mas se justifica pelo bem que parecem, são as ruas cheias de gente devota, as cozinhas carregadas do melhor que a gastronomia sabe, o cheiro a filhoses que teima em sair por cada janela ou porta que se abre naqueles dias, as fogaças com as oferendas que cada zona recolhe e arruma de forma exemplar em pequenos andores enfeitados com flores de papel, e que até ostentam notas de escudos penduradas em ramos de oliveira, mas estas já tinham passado e já tinham sido depositadas no arraial, agora, ei-la, a Santa Margarida, que passa carregada num andor dificilmente suportado aos ombros por algumas das mais belas raparigas da terra, regressava naquele dia à Igreja, depois de ter estado na sua Capela, ali no arraial, onde o pagão e o cristão se interligam, a banda filarmónica exibe as horas de dedicação do seu maestro e dos seus executantes nas melhores músicas que ecoam pela vila, a fanfarra dos bombeiros aprumada, com os homens e os rapazes da terra a ostentarem as suas fardas azuis e os capacetes dourados que brilham e ofuscam na guarda de honra à Santa. 

A noite chegou depressa, ou nós é que tínhamos pressa, não sei bem, e lá estávamos à hora combinada no jardim, para o início de uma noite de festa, a partir dali era um passeio sem fim, pelas ruas da vila, que nos haviam de levar e trazer várias vezes ao arraial, primeiro atuava o racho no antigo coreto, hoje já lá não está, lembro-me das saias rodadas delas e dos sapatos deles que batiam no chão com muita força, a partir daqui as famílias começavam à procura do melhor lugar para ver o fogo de artifício, algumas optavam pelo adro da Igreja por ser um ponto alto, outras refugiavam-se nas casas de familiares ali perto e acudiam às varandas, nós, estávamos prontos para mais um passeio, arraial abaixo, até ao centro da vila, pelo caminho havia olhares envergonhados, sorrisos que teimavam em deslizar para os cantos da boca quando os olhos se cruzavam com aqueles que haveriam de dançar noite afora. Valia-nos sermos amigos do filho do pirotécnico da terra, hoje o melhor do mundo e arredores, que nos advertiu sempre, que o fogo era para ver do arraial e não dos arrabaldes. Tínhamos pouco tempo, não tardava e a vila ficava às escuras, todas as luzes se desligariam, a aparelhagem sonora iria calar-se para dar palco ao fogo preso e ao fogo de artifício, voltávamos sempre apressados, com risinhos adolescentes, acomodávamo-nos onde podíamos e ali ficávamos com a respiração suspensa, o pescoço esticado e os olhos lá longe a ver o espetáculo, havia sempre uma peça de fogo preso com um ciclista que pedalava apressado, se incendiava e no fim desaparecia, a cada foguete que estalava, ouviam-se pequenos gemidos de contemplação, no final rebentavam umas quantas bombas de seguida: dez?! Rompiam os aplausos, durante vários segundos, entretanto as luzes voltavam a acender-se, ainda os aplausos duravam. Sacudíamos os pequenos pedaços de foligem e areia. Depois, depois vinha a melhor parte da festa, as famílias iam indo, os mais velhos dobravam os bancos de lona onde tinham estado sentados a ver o fogo, levavam-nas debaixo do braço e seguiam numa romaria que os levava a casa, se pudéssemos ver de cima, haveria de parecer um formigueiro. E nós, bom, nós despedíamo-nos das tias, das avós, dos pais, aceitávamos algumas indicações que podiam variar entre o “tenham juízo”, ou: “às 2h quero-te em casa”. Começávamos a sentir as borboletas na barriga, íamos em grupo, a rir e a falar alto para a fila do carimbo, que a mais não correspondia do que pagar e obter uma carimbadela num pulso ou numa mão para entrar no recinto onde se dançava, na pista de dança da Festa da Santa Margarida, vou saltar alguns pormenores como o da reprodução das carimbadelas, em que pagava um e entravam dois, ou o de tomar banho durante os três dias da festa sem molhar o pulso onde estava o carimbo, motivo de orgulho por aqueles dias. Aquele carimbo que não me lembro ao certo o que dizia, mas seria qualquer coisa como BVO ou ARCO, (Bombeiros ou a Associação Recreativa), era o passaporte para entrar no dancing, que correspondia à zona perto do palco onde se dançava, e que tinha a particularidade de estar isolada, era uma espécie de gaiola grande, delimitada por ramos de eucaliptos sobrepostos, é preciso dizer que por ali os bailes ao longo do ano, ainda tinham por princípio a presença acompanhada e vigilante das mães, que se sentavam nas cadeiras dispostas à volta do salão e que aprovam ou não os pares com que as suas filhas dançavam. Daí que a estratégia do dancing ser isolado às miúdas da terra conferia-lhes uma certa emancipação e permitia-lhes dançar como queriam com quem queriam. Eu delirava com aquele isolamento com ares de clandestinidade. Era a noite de FH5, tenho a certeza que a sul não me divertiria tanto! Continuávamos a ser felizes e sabíamos.

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.