Crónica

Daquelas coisas da andorinha e do bando…

Que sim, que o verão chegou ao fim, que dizem que se estivermos atentos podemos ver as andorinhas a juntar-se para irem embora, à procura de outros sóis, e na mesma alegoria anunciou-se esta semana que o Vice-Almirante Gouveia e Melo termina a sua missão na coordenação da task force da vacinação. E, se entretanto, já se perderam nestas duas ideias tão descabidas e nem vislumbram a possibilidade de qualquer ligação entre ambas… bom, se tiverem roupa para estender, ou uma panela ao lume para mexer, ou outros afazeres, não se percam, vão, até porque a sopa agarrada ao fundo da panela é tramada e a roupa enrugada dá imenso trabalho a passar a ferro.

Se as andorinhas andam em bandos e se nos dizem e repetimos sempre que queremos enquadrar uma equipa: uma andorinha não faz o bando, hoje perco-me nestes pensamentos, que talvez não sejam nem tão profundos nem tão dignos de partilha, mas ainda assim arrisco: preocupam-me os endeusamentos, todos, sem exceção, e “encanita-me” sempre a ideia de dourar os topos das pirâmides e tornar transparentes as suas bases e os seus meandros. E sinto isto em vários contextos, sempre que se glorifica alguém que é o rosto visível de qualquer estrutura e se esquecem todos os outros, volto acima para agarrar a primeira ideia, se sabemos que uma andorinha não faz um bando como fazemos depois para glorificar só uma delas?!

Há vários contextos em que isto me encarrapita os nervos, um exemplo? (estive ali, e contrariei) Quando no final da Escola Primária se oferecem presentes ao(à) Professor(a), sim sempre com maiúsculas, e se esquecem todos os outros. Uma Escola é uma estrutura, ali trabalham muitos e muitas que viabilizam todo o processo, desde quem limpa, a quem os recebe pela manhã, a quem lhes ensina e reforça todas as outras aprendizagens, a quem os alimenta, e por aí fora, então como nos atrevemos a presentear “apenas” o pináculo, a fase visível de todo aquele sistema, desde quando invisibilizamos todos os restantes, como é que perpetuamos esta prática e a reforçamos perante os nossos filhos? Não percebo. E seguimos por aí fora, quando nas empresas continuamos a destacar e a agradecer, tantas vezes, apenas ao topo das hierarquias? Ou nas organizações, destacamos os Presidentes, ou os Administradores, ou os Diretores… Continuo sem perceber.

Conseguem agora aproximar-se da primeira ideia com que comecei esta crónica? Pois é, não entendo como é que se glorifica o Senhor Vice-Almirante desta forma, se lhe agradece tudo, e se esquecem todas as outras andorinhas… quanto muito estaríamos apenas a destacar-lhe a capacidade de liderança, não é curto? Não sei nada e na verdade não me interessam as patentes nem e as hierarquias militares, e também não partilho da crença de que ali sobre as fileiras se formem Homens, mas ao que sei de missões e de as cumprir, sabem eles. São treinados para isso, bom e nesse caso restava-nos o quê? Aguardar que ao jeito dos discursos das passadeiras vermelhas da vida, o galardoado não só dedique o prémio à sua família como depois o partilhe com a sua equipa, naquele momento? Sim, numa orquestra o maestro é fundamental, mas é o único?! a música sai sozinha e coordenada dos instrumentos? No futebol, alguém joga sozinho? Na vida há poucos “one man show”, e estes casos definitivamente não são um deles.

Consigo entender este comportamento em termos institucionais, onde por impossibilidade lógica de se estenderem os actos simbólicos a todos os envolvidos, se atribuem louvores e honrarias aos vértices das pirâmides, já não tenho a mesma capacidade de entendimento quando vejo as extensas homenagens e agradecimentos espalhados em nomes individuais nas páginas dos livros da vida pela net afora. Nas mesmas páginas vi os arco-iris com a legenda: Vamos todos ficar bem! E não vi, porque não estive lá, mas arrisco aí uns cinco minutos finais da vida, exatamente aqueles antes do céu me cair em cima, como também foram os mesmos que afastaram os cortinados e escancararam as janelas das suas casas para aplaudir os Profissionais de Saúde, algures no ano passado.

Antes de terminar, só um pequeno reforço: não tenho nada contra o Senhor em causa, mas também não me ocorre tanta admiração no cumprimento das suas funções, julgo até que o próprio já disse algo parecido.

É só mais uma das minhas impertinências da vida, aos que foram ver da sopa e aos que foram estender a roupa, digam-lhes que não perderam nada de importante. Em vez de – Obrigado!, vou pluralizar e agradecer assim: -Obrigados! Sim, sei que está errado, mas apetece-me mais que nunca pluralizar!

Quando é que começamos a ver os bandos, em vez da andorinha?

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.