Crónica

Big P

Durante os meses de verão a animação estava assegurada pelas festas e romarias das redondezas, não havia tédio, havia todo um roteiro em forma de cartazes com promessas de agrupamentos musicais a abrilhantar os bailes, em locais mais próximos, outros menos, havia festas em locais em que ninguém desconfiava.

Quando os dias estivais abrandavam, iam-se as festas. Os emigrantes regressavam aos seus dias mais difíceis, as famílias levantavam os arraiais das férias e Oleiros voltava a contar apenas e só com os que fielmente ali viviam, as ruas desertificam com o por do sol, à noite não havia almas vivas por ali. Os horários das escolas determinavam os bandos de pardais loucos à sexta-feira alguns de nós regressávamos, cada um procurava coisas diferentes, o fim-de-semana era o reduto de conforto para quem regressava a casa carregando a trouxa da roupa suja e as marmitas vazias, era um novo folego para outros, havia quem voltasse para rever pequenos fogachos de paixão que teimavam em manter lume após o verão, outros regressavam dos quarteis para onde tinham ido para se fazerem homens.

E o fim-de-semana precisava de agitação, que era coisa que por ali não havia, o tédio explodia nas asas das chávenas ao segundo café, ou do copo da imperial que tomávamos com os amigos, era preciso mais, águas mornas não eram para nós.

Assim, não me lembro quando nem quem sugeriu no meio do tédio pantanoso em que nos alagávamos lentamente naquela noite de irmos dançar! E de repente até havia alternativas, no Salgueiro do Campo, e na Sertã, os astrofísicos ali sentados começaram a divagar sobre distâncias-depósitos de gasolina-tempo-condições da estrada-e outras unidades de risco. Progresso era isto, era haver uma discoteca perto.

A estrada era a antiga, eram vinte e nove quilómetros de Oleiros à Sertã, de curvas apertadas e de alcatrão rarefeito pela passagem dos camiões de madeira, os bólides da altura eram um bocado diferentes dos atuais, mas eram autênticos borboletários tal o entusiasmo que levavam dentro. Sendo que havia quem quisesse ir à Sertã para ver ou rever paixões e namoros também, nesse caso o desassossego só terminava lá dentro da discoteca: big P.

Naqueles tempos dançar no inverno com os amigos era um privilégio a que não estávamos habituados, vou refazer a frase para uma forma mais sincera: era um privilégio para o qual não estávamos preparados. Não era a mesma coisa que uma festa ao ar livre, onde muitas vezes não era necessário conduzir de volta a casa. A idade era a dos excessos, tudo servia de pretexto para darmos significado à palavra: muito. Muito barulho, muita música, muitos copos, muito investimento pessoal, muito suor, mutos corpos de poros dilatados, era tudo muito!

A viagem de ida nem sempre era isenta de picardias entre condutores, corremos muitos riscos desnecessários, e os pais em casa, uns mais tranquilos que outros, a treinar o desapego aos seus filhos! Uma vez lá dentro, os grupos desfaziam-se para se criarem novos, vinham os amigos-locais, apresentavam-se novos, nos anos que acabam em “intes” outra das características é a expansão, tudo se expande em nós. Depois, era o labirinto entre o bar-a pista-a casa de banho e-os sofás, uns iam, outros vinham, havia músicas que puxavam todos para a pista, eram uma espécie de voz de comando, pousavam-se os copos, ou não, às vezes ia-se de copo na mão mesmo, ia-se de braços no ar responder ao chamamento do som que tocava, (importante referir que não eramos exigentes musicalmente) ao som da Macarena, por exemplo, saía-se dos sofás, da casa de banho, e corria-se à pista já em coreografia, aquilo era apoteótico para a maioria, mas desconcertante para os menos coordenados, pouco importava porque se não dançávamos, riamo-nos como se o mundo acabar, quando iam uns para a direita e outros para a esquerda. Sintam-se convidados a escrever nos comentários outras músicas que produziam estes efeitos, ou outros. Mais para o início da madrugada faziam-se as delícias de quem gostava de dançar agarrado, eram os slows, que permitiam aos namoros e aos flirts apertarem-se e colarem-se na mesma proporção do final do mudo a acontecer no minuto seguinte.

Quando a música parava e as luzes todas se acendiam, saíamos, mas não era fácil voltar a reunir a “grupeta” original, havia ainda mãos entrelaçadas a namoros da Sertã, teimosias alcoólicas que se achavam os melhores condutores do mundo e estavam, claro, aptos a seguir viagem a bordo dos seus foguetões. Passamos algumas madrugadas, até ser dia, a arejar ali junto à Ribeira da Sertã, na Carvalha, até que o ar fresco, às vezes gélido, arrefecesse ânimos e baixasse o nível de álcool no sangue para podermos voltar aos carros e seguir em segurança para Oleiros.

Para no dia seguinte termos a boca a saber a papel de música e ouvir ainda o helicóptero a sobrevoar-nos a cabeça!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.