Opinião

Avante sem preconceitos

Não há festa como aquela.

Durante muitos anos decidi que não queria ir ao Avante, era preconceito e viveu comigo durante muito tempo. Um dia decidi deixar-me de coisas e fui. Desde o primeiro momento que meti um pé ali que fiquei maravilhada. Em que outro lugar nos recebem com um sorriso e nos desejam uma boa festa? Coisa rara.

Lá dentro podemos comer, ir ao cinema, ao teatro, ouvir música, comprar livros e discos, ver exposições, debater coisas, ver gente bem-disposta enquanto trabalha. Coisa rara.

Come-se posta mirandesa em Bragança, sardinhas em Peniche, maranhos em Castelo Branco, queijo e presunto na Guarda. Tive a oportunidade de explicar o que são maranhos a um casal que estava à minha frente na fila e que chamou mais uns quantos para saberem o que era e ainda entrei numa discussão sobre as maravilhas dos tortulhos. Enquanto se come, as pessoas conversam umas com as outras, discutem ideias. Pessoas que nunca se tinham cruzado na vida conversam com prazer enquanto comem. Coisa rara.

Existe um espaço internacional. Comi cachupa em Moçambique, bebi mojito em Cuba, bebi cerveja alemã, caipirinha no Brasil, pisco no Peru e uma queimada galega que me disse que este ano tenho menos um mau-olhado do que no ano passado. Mais uns anos no Avante e fico sem maus-olhados! Adiante.

No espaço criança, enquanto o carrossel roda, ouvia-se “Com um brilhozinho nos olhos” e que eu saiba não desapareceu nenhuma para ser preparada para o pequeno-almoço. Pelos vistos a minha avó estava enganada quanto a esta questão. Adiante.

Concertos? Há de tudo para todos os gostos. Ali já vi desde o Criolo aos Xutos e Pontapés, passando pelos Moonspell, Clã, Cante Alentejano, Fausto ou os Mão Morta. Há sempre espaço para muita variedade. Coisa rara.

Mas não vou ali pelos concertos. Confesso que o que mais gosto é sentar-me algures e ficar a observar como tudo flui. É a minha cena. Numa dessas vezes, veio um senhor mostrar-me um banco que estava mais à frente e onde corria mais o ar. Aquilo chega a uma altura em que já só sorrio e agradeço. Coisa rara.

Num sábado, já no final da noite e enquanto esperávamos que as pessoas saíssem do recinto por causa do transito, abancámos em Coimbra e de repente todas as mesas começaram a cantar: Emociono-me sempre que penso nisto.

Houve uma altura, que enquanto passeávamos, duas senhoras vieram ter connosco e perguntaram se tínhamos sugestões para melhorar a festa num próximo ano e se achávamos a mensagem politica demasiado agressiva… Respondemos que não porque as pessoas sabem para o que vão. A festa é feita por comunistas para camaradas, amigos e visitantes, é o que se ouve nos altifalantes. É simples. Há muito trabalho político ali, mas participar nos debates, no comício, cantar o Avante ou a Internacional de punho cerrado é opção de cada um e ninguém se chateia com isso.

Eu já não passo sem o Avante. Quero viver por muitos anos para poder festejar com os amigos ali. Quero dançar a Carvalhesa e correr para o palco 25 de Abril quando se ouvem os primeiros acordes porque a Carvalhesa é amor.

Era giro que mais colocassem os preconceitos de lado e fossem espreitar o mundo perfeito que ali se vive por três dias. Coisa rara.

Até para o ano.

Autor

Tradutora por habilitação, professora por profissão, viajante e curiosa pelo mundo por opção.