Crónica

Dos recomeços e das aprendizagens

Setembro é o mês dos recomeços, abre-se toda uma perspetiva imaculada, como num caderno branco podemos (re)começar a escrever, tenho sempre a doce ilusão de, neste caderno onde ainda não escrevi nada, poder escrever sem rasuras, sem riscar e sem voltar a escrever. Tenho a ilusão de que vamos escrever de uma golfada, sem hesitações, assim com a caligrafia alinhada, apesar da ausência de linhas que a suportem.

É o regresso à Escola (assim com letra maiúscula devido à importância vital), é o momento de ir, de rever Amigos (sim também com letra maiúscula), conhecer novos, rever Professores e Auxiliares (idem para ambos), conhecer novos, de aprender, de brincar, de crescer. Tenho vários “problemas” com a Escola, ou melhor, com o entendimento daquilo que deve ser a Escola, vou poupar os dicionários etimológicos de Latim, que já estão gastos e de folhas frágeis, que não sendo caducas, teimam em não se regenerar, o meu problema é com aquilo que se pretende da Escola, eu sei bem o que pretendo, não de uma forma arrogante, porque consigo sempre aprender-lhe novos caminhos, mas de uma forma consciente, pretendo que por ali se continuem a formar seres humanos decentes, capacitados não só das sabedorias académicas, vivam os Mestres, mas mais, capacitados da habilidade de viver em sociedade. É estranho? Talvez, nesse caso explico-me melhor: a Escola, como parte integrante da vida devia revestir-se de momentos de aprendizagem constantes, e pergunto-me muitas vezes se o empenho com se ensina o Teorema de Pitágoras, ou as declinações verbais em qualquer língua, não deveria ser o mesmo com que se ensina a Pensar, a Respeitar, a Partilhar, a Aceitar e a Empatizar, mais ainda quando se fala da possibilidade de pais se constituírem objetores de consciência em matéria de Cidadania? – A Cidadania não é, nem pode ser facultativa, não se escolhe, questiona-se, claro, não há nada que deva ser acrítico, assim com a Democracia, são pedra-toque, aprendem-se, melhoram-se quando possível e praticam-se!

A minha visão de Escola salta para fora do edifício/templo que lhe foi destinado, podíamos todos combinar, pais, Professores e Alunos, que não vamos desperdiçar nenhum momento de aprendizagem, bora?

Todos os momentos devem ser de possibilidade de aprendizagem, quando na rua da Escola vemos os reis/rainhas/donos disto tudo levar os seus principezinhos/princesinhas à porta da Escola, abrir vagarosamente a bagageira para que tirem sem pressas as suas mochilas, as suas lancheiras e os seus casaquinhos, não sem antes os encherem de beijos repinicados nas bochechas e lhes dizerem que gostam de suas altezas dali até à lua, mil milhões de vezes…enquanto o trânsito se acumula por várias ruas!… vamos parar e abrir uma página para fazer perguntas aos nossos miúdos, sobre o que ali se está a passar? Sim, bem sei, que andamos apressados para a reunião, com a lista de afazeres na cabeça, que inventamos e lhes damos para as mãos pequenas portabilidades imprescindíveis, que os Professores que estão no interior dos quadrados a que alguém convencionou chamar sala de aulas, a pensar nos teoremas e nos anátemas dos teoremas, talvez possam vir à janela, ou aguardar pelos seus Alunos, ali, no pátio, e aproveitar a situação para abrirem também uma página no novo caderno e questionarem juntos, se faz sentido?

Depois, também me encanita os nervos a classificação das disciplinas, há quem teime em considerar umas mais importantes que outras, alguns classificam algumas de “nucleares”, sempre contrariei, contrario sempre que posso, indigno-me quando se considera a Educação Musical desnecessária na formação dos Alunos, quanto só é obrigatória até ao 6º ano, quem retira as Artes do plano da formação de seres humanos, ou as secundariza, não percebe que o que urge mudar não pode esperar!

Que despertar ritmos, sons, nossos e dos restantes, do mundo, das outras culturas, para a harmonia, ou falta dela, ou o que fazemos com o Desporto ou a Educação Visual, ah o meu filho, ou a minha filha não tem jeito nenhum!, assolam-se-me várias perguntas, abafo algumas delas para outra altura, outras não posso: e a oportunidade de nesses contextos se aprender coisas imprescindíveis à vida como: trabalho em equipa, o respeito pelo colectivo, a estratégia que pode ser para vencer, ou tão só para segurar o resultado, e no desenho: o rigor, mas também o seu oposto, o gosto pelas cores, pelo improvável pelas emoções que se podem exprimir com materiais e cores, ou com a ausência delas?

E a “Examinite”? Ui, pior que a arterite que deforma os ossos, esta necessidade de avaliar, de examinar, o colocar de obstáculos extra e desproporcionais áquilo que deveria ser uma decorrência do desenvolvimento natural, em idades tão despreparadas, se sobrepõe quase sempre ao aguçar de curiosidades, à exposição, ao novo, ao permitir que descobram, sem colocar o pendor (excessivo) na forma como devolvem aquilo que tantas vezes foram forçados a aprender. E porquê de forma escrita? E o que fica para lá do exame?

Enquanto estivermos centrados a formar e a avaliar “performances”, estamos a desperdiçar oportunidades para formar cidadãos decentes!
E a página em branco do caderno vai certamente ter muitas rasuras, para ser feliz, precisamos não só de aceitar, como de valorizar o erro: como uma nova possibilidade de aprendizagem. Bons recomeços a todos!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.