Crónica

Para o ano é que é

Se este fosse um ano normal:

Hoje, à hora em que publicamos esta crónica, muitos de nós estaríamos derreados, traríamos na cabeça vários helicópteros a descolar ou a aterrar, e pianos de cauda a tocar insistentemente, as papilas gustativas estariam saturadas e alguns de nós estaríamos ainda submersos nas almofadas, que por estes dias pouco teriam sentido o peso das nossas cabeças, outros num esforço titânico estaríamos já a pé, a tentar disfarçar as mazelas das noites que viramos e a fingir que nada se tinha passado.

As conversas andariam à volta dos reencontros, as roupas e os sapatos novos já teriam saído à rua, para mais não seja acompanhar a Santa Margarida que no domingo teríamos ido devolver à sua capela, as cabeleireiras estariam exaustas de por e tirar rolos, sempre suspeitei que algumas senhoras ilustres, por estes dias dormiriam sentadas para não amachucar os fofos caracóis esmeradamente armados pelos vários salões da vila. As colchas que ornamentaram no domingo os varandins e os parapeitos das casas, ondulando à passagem do vento já terão voltado para as arcas e para as bolas de naftalina. Terá sido a única coisa que persistiu na anormalidade do segundo ano sem festa.

Os frigoríficos das casas estariam a abarrotar de restos e restinhos, de caixas empilhadas num equilíbrio quase impossível do melhor que o receituário beirão sabe, sem grande esforço consigo imaginar a caixa com o resto do maranho algumas fatias já cortadas e o restante ainda por cortar, numa outra caixa as sobras do cabrito, o pudim de claras já semi amachucado que teimaria em manter-se de pé, com a mesma dignidade frouxa com que andaríamos hoje pelas ruas da vila, as toalhas de mesa teriam saído várias, das gavetas para a mesa, esperariam mais um ou dois dias até chegar à máquina que haveria de trucidar as nódoas de vinho e as de gordura, às primeiras quem chama de alegria é porque nunca olhou para a dona da casa no momento dessa condecoração, de sorriso amarelo posto, enquanto diz sem qualquer convicção: -É alegria, venham mais! As baixelas e os melhores copos teriam sofrido mais erosão por estes dias do que nos restantes trezentos e sessenta dias em que jazem nas prateleiras dos móveis.

Já se teriam batido os recordes de consumo de cerveja, a banda e os foguetes já nos teriam acordado numa alvorada que ninguém deseja tão cedo por aqueles dias, já teríamos praguejado com o vento, que teima em soprar e espalhar o som da música, para alguns o barulho infernal que vem do arraial a horas em que até as galinhas ainda dormem, da mesma forma que já nos teríamos queixado do som das colunas espalhadas pela vila, que logo aos primeiros raios de sol disparam música, antigamente disparavam também anúncios lidos numa voz monocórdica para relembrar os pequenos negócios locais, que tinham ajudado a comissão de festas naquele ano. O peditório casa a casa já teria passado, as oferendas e as fogaças também. 

Já teríamos olhado várias vezes para o cartaz da festa, já teríamos perguntado se os FH5 já não tocam, já teríamos deixado conversas a meio para ir a correr dançar aquela música, já teríamos segurados os copos plásticos de cerveja com os dentes para bater palmas, numa urgência única já nos teríamos entreolhado reconhecendo o sorriso de sempre, já nos teriam faltado as mãos para agarrar as cervejas que no arraial nos chegam aos pares, já teríamos perguntado:- Quantas vou buscar? Já teríamos revisto os amigos de sempre e os que só reencontramos por estes dias, já teríamos abraçado e beijado, já teríamos “dançado coisas” que só dançamos ali, já teríamos recordado outros braços onde dançamos apertados lá atrás no tempo, já teríamos feito todas as coreografias que a memória não apaga, já teríamos sussurrado várias vezes a vários ouvidos. Já nos teríamos afastado das colunas umas quantas vezes, para tentar manter alguma conversa mais séria, ou porque aquela música não era para nós. Já nos teríamos encolhido do frio das noites de agosto em Oleiros. 

Já teríamos intervalado festa com mergulhos gelados na ribeira na tentativa inglória de recuperar o viço, que logo ao fim do primeiro virar de madrugada, nos faltava.

Tudo isto e muito mais se teria passado se este fosse um ano normal. A frase que mais teríamos repetido, talvez a partir de domingo, mal o fogo de artifício tivesse acabado de estoirar, e ainda se ouvissem as palmas, ainda não teríamos recuperado a posição vertical do pescoço, estaríamos ainda a sacudir os cabelos: – Ou acabamos com a festa, ou a festa acaba connosco!

Para o ano é que é! 

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.