Opinião

Sobre pertencermos uns aos outros

Em 2020, saudade foi eleita a palavra do ano em Portugal e seria provavelmente seguida de uma humanidade inteira caso não representasse tão árdua tarefa nas artes da interpretação.

Saudade como o rosto de uma versão íntima e vulnerável de nós mesmos.  Num delírio quase febril que se mostra num “afinal de contas”, para assim percebemos que são os outros que nos dão sentido à vida, que nos fazem sentir gente.

Se no passado ganhámos força em comunidade, com o advento da vida moderna vimos o múltiplo fragmentar-se num exército de soldados solitários. Com os novos tempos vimos também nascer o mito da independência e da auto-suficiência como o messias e o herói de uma  história sem final. Uma verdade que, enquanto humanidade, decidimos aceitar como universal e transformou brutalmente a forma como passámos a relacionar-nos com o eu dos outros.

Espero que a individuocracia possa dar origem a um sentido de comunidade tão profundo que traga uma reconfiguração na forma como nos ligamos uns aos outros e como sentimos essas dependências. Que possamos ver diminuir as distâncias e celebrar as dependências, como regra de um contrato social da comunidade que queremos ajudamos a construir.

Porque toda a gente precisa da sua gente, para 2021 quero mais sentido de comunidade, mais ligações, mais “rede que combina seres humanos com outros seres humanos… uma rede que une” (Resina).

Da solidão para a certeza de que pertencemos.

Autor

Sonha em construir uma casa no Trisio. Acredita que sonhar não custa e por isso gosta de ter os pés um pouco levantados do chão.