Quando emigrei decidi escrever uma série de cartas às pessoas e aos lugares da minha vida. A Sertã ficou de fora desta alameda de até jás por nos termos despedido há muito tempo, e por saber ser um sitio onde irei sempre voltar.
Há um par de dias fui re-descobrir perdida, entre as páginas de um caderno de notas, uma dessas cartas de despedida a que chamei Obrigada Lisboa e que hoje aqui vos transcrevo.
Obrigada Lisboa, por me teres recebido tão bem, não podia ter pedido um regresso mais descomplicado. Obrigada por me teres aproximado de muitos dos amigos de sempre e por nos teres permitido criar o cenário ideal para que pudéssemos renovar a validade dessa ideia rebelde de é “para sempre”.
Obrigada Lisboa, por me teres juntado a pessoas tão desiguais e que me fizeram questionar as minhas verdades. Este teu dom para encontros inesperados sempre me encantou.
Obrigada Lisboa, por manteres as fronteiras com o mundo invisíveis como se fossemos uma cidade grande, mas sem nunca perder de vista aquela sensação de conforto como quando nos sentimos em casa.
Obrigada por tudo e até já.
Esta foi a Lisboa que me ficou na memória, não a Lisboa dos hostels, dos tuk-tuks, dos passeios carregados de turistas e das fachadas a deixar fugir o traço da história que a ergueu.
Quando me despedi, não quis guardar na memória uma Lisboa urban-chic e maquilhada de cores que nunca nos pertenceram. Gosto mais da outra, a Lisboa das tascas, dos bairros-aldeia, das colinas que se percorrem a pé, dos Alfarrabistas da Baixa.
A Lisboa dos gatos à janela, dos estendais a revelar as escolhas íntimas das vizinhas mais descaradas. A Lisboa do café curto ou cheio, com ou sem princípio, em chávena fria ou escaldada, com ou sem cheirinho, carioca, pingado ou abatanado e até mazagran para os dias de mais calor.
A Lisboa que nos faz correr para apanhar o cacilheiro na esperança de conseguirmos um lugar na melhor esplanada do Tejo. A Lisboa que nos faz enfrentar sem medo um encontro as cegas no S. Jorge e descobrir, como que por acaso, o melhor filme que já vimos este ano!!!
A Lisboa dos encontros de fim-de-dia, dos brindes que nos elevam o espírito enquanto escondemos a emoção ao ver o pôr do sol na Graça, em Santa Luzia, na Senhora do Monte. Porque há sempre um novo miradouro por descobrir.
Percebe-se que estou com muitas saudades de Lisboa e de Portugal?
Hoje não deixo uma música mas antes a sugestão para uma visita guiada à Lisboa do antigamente através do livro “Lisboa – O que o turista deve ver” do Fernando Pessoa. Boas leituras!






