Crónica

Sem tempo

O sol já ia alto, quando ele saiu de casa para desfrutar a nova paisagem, e para presentear os seus pulmões de um ar que, de tão puro, faziam o seu sistema respiratório regozijar de tal dádiva.
Ao descer a rua, contemplava as casas rasteiras, e em plena harmonia com uma densa mancha florestal, onde dominava o pinheiro bravo, e onde eram visíveis as copas das árvores encosta abaixo, até ao leito da ribeira, que corria tranquila e descomprometida. Como se o mundo não dependesse do seu jusante.
No fim da rua, um homem sentado no muro de pedra tosca, desfrutava do seu ócio contemplativo.
Chegou-se a ele, e apresentou-se

– Bom dia!

– Bom dia, respondeu o homem

– Sou novo habitante na aldeia, morava em Lisboa, e descontente com a vida cansativa e desgastante que levava na cidade, decidi encetar uma mudança radical, e mudei-me para cá.

– Fico contente de ver gente nova na aldeia, sou o presidente da junta de freguesia, e ainda bem que nos encontrámos, pois tenho uma coisa para si.

O homem, curioso com o seu novo habitat, assim como da encomenda do alcaide, perguntou-lhe de que se tratava.

– Venha comigo à sede da junta, agora só lá voltaria depois de almoço, mas antes de almoço ainda poderemos lá ir.

Desceram a encosta, enquanto o chilrear dos pássaros, e o som dos passos no asfalto, iam criando contrapontos à conversa cordial e compassada dos dois homens.
O presidente encostou a mão à porta que não se encontrava no trinco, abrindo-se com o ranger habitual. Sentou-se à secretária, e vasculhou dentro de algumas gavetas onde retirou um relógio de pulso. Olhou para o novo habitante, e esclareceu.

– Desde que sou presidente, tenho esta oferta para os novos habitantes da aldeia, é um gesto simbólico, que representa um presente de boas vindas, e um símbolo de todo um novo estilo de vida.

O homem agradeceu, explicou que estava sensibilizado com a oferta, que representaria o primeiro laço das cordiais amizades que pretendia criar com todos os habitantes.

– Como sabemos, nas cidades temos muita dificuldade em ter uma relação próxima com os vizinhos, e uma das razões que me fez mudar foi precisamente essa. A necessidade de criar laços humanos que me dessem sentido à minha breve existência.

O presidente, pegou no relógio, olhou para a torre da igreja, que rasgava a copa da densa mancha de pinhal visível da janela do escritório, e comentou.

– Preciso só de acertar os ponteiros.

Depois de rodar um pouco os ponteiros para a hora atual, e de trancar a roda que aciona o mecanismo, entregou ao homem a oferta, em nome de todos os cidadãos da aldeia, e desejou que a sua adaptação fosse aprazível, afirmando que uma nova vida o esperava.
O homem colocou o relógio no pulso, agradeceu, e comentou que esperaria poder ajudar a elevar o espírito de solidariedade, que sabia existir entre os habitantes.
Apertaram as mãos, e estava o homem a sair pela porta do escritório, quando olhou para o relógio, e reparou que o ponteiro dos segundos estava parado. Virou-se para o presidente, e comentou.

– Parece não está a funcionar, precisará de pilha?

– Não me diga que os ponteiros estão a andar?

– Não, estão parados, por isso comentei.

– Ok, ainda bem, na realidade isso não é um relógio, é um transferidor de tempo. Ele transfere todo o tempo que tem para si, assim nunca será escravo do tempo, mas ele de si.

O homem, olhou bastante surpreendido para o presidente, e ele continuou.

– Aqui na aldeia, o tempo é nosso escravo, por isso é obrigado por decreto a ceder-nos todos os segundos, se os ponteiros por alguma razão começarem a andar, venha cá que a gente arranja, ou troca. Um abraço, e até já.

O homem agradeceu, fechou a porta, e curiosamente, nunca mais se sentiu efémero.

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.