Petricor

Ninho

Passei uma grande parte deste confinamento em teletrabalho numa vila da zona do Pinhal Interior que, como diz uma amiga conhecedora destes assuntos da paisagem, deverá cada vez mais deixar de ser vista como “pinhal” e como “interior”.

No dia em que cheguei, recebi uma mensagem de um amigo e vizinho: “Bem-vinda ao paraíso!”. Excelente receção, depois de cerca de mês e meio confinada num apartamento no centro de Lisboa.

Este regresso soube-me a confiança, a segurança, a ninho. Tenho a certeza que se tivesse passado todo este tempo no tal apartamento no centro de Lisboa a minha sanidade mental, neste momento, não seria a mesma.

Na verdade o que descobri, e já desde os meus 18 anos que não passava tanto tempo seguido em Oleiros (ah, pois, esqueci-me de vos dizer, o paraíso é Oleiros, e ai de quem diga o contrário!), foi que este ninho é ainda mais bonito do que eu apregoava. Descobri novos percursos para andar de bicicleta, gravuras rupestres que não conhecia, cascatas de água que nunca tinha visto, pois as caminhadas a esses locais são sempre efetuadas em época de estio…redescobri ligações que tinha perdido e fiz outras novas. Há lá melhores ingredientes para o nosso bem estar emocional?

Muitos de nós nestes tempos de pandemia, em que tivemos mais tempo, e em que percebemos que o tempo contém um tempo, redescobrimos lugares e pessoas. Olhar com outros olhos para o que já conhecemos fez-nos perceber que, devido à voragem dos dias, pouco tempo damos ao tempo. E às pessoas. E aos lugares. E ao tempo nos lugares e nas pessoas.

Os números não mentem e a atual pandemia tem condicionado todas as atividades económicas, em particular a do Turismo. A estimativa aponta para um decréscimo de 97% no número de hóspedes e dormidas (estimativas de indicadores divulgadas pelo Instituto Nacional de Estatística e Turismo de Portugal), face aos meses homólogos do ano passado. 78% dos estabelecimentos, que representam 90% da oferta, assinalaram que a pandemia COVID-19 motivou o cancelamento das reservas, já agendadas, para este verão.

Ajudemos a que estes números se revertam e voltemos ao nosso ninho, aos ninhos dos nossos amigos, dos nossos familiares e redescubramos o Interior, o Norte, o Alentejo, os (meus queridos) Açores e Madeira. Compremos produtos locais e regionais e ajudemos a nossa economia a reerguer-se.

Demo-nos Tempo. A nós, aos outros, e aos lugares.

O risco que corremos é o de, ao “irmos para fora cá dentro”, descobrirmos verdadeiros paraísos – como o meu – em que voemos sem amarras!

Tenho um pássaro negro
para que voe de noite.
E para que voe de dia
tenho um pássaro vazio.

Mas descobri
que os dois chegaram a acordo
para ocupar o mesmo ninho,
a mesma solidão.

Por isso, às vezes,
costumo tirar-lhes esse ninho,
para ver o que fazem
quando lhes falta o retorno.

E assim aprendi
um desenho incrível:
o voo sem amarras
no absolutamente aberto.

— Roberto Juarroz

in A Árvore Derrubada pelos Frutos, selecção e tradução de Rui Caeiro, Duarte Pereira e Diogo Vaz Pinto, Língua Morta 086, 2018, p. 49.

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.