Esta fotografia foi tirada num dos dias em que mais senti que o mundo era desigual. A mãe da criança sorridente da fotografia tinha sido violada pela segunda vez na sua vida, nesse dia. Uma mulher que abandonou Moçambique depois de umas cheias enormes que ocorreram naquele ano, com uma filha nos braços, fruto da primeira violação. A segunda foi nesse dia, num curto trajeto entre o local onde o motorista da instituição que a acolheu a tinha deixado e o local onde ia tratar dos documentos para a sua legalização naquele país, África do Sul.
Mas também foi tirada num dos locais onde senti haver mais AMOR na minha vida – o Bienvenue Shelter, em Joanesburgo – centro de acolhimento de mulheres vítimas de terrorismo sexual e violações, e das suas crianças. A extraordinária portuguesa Adília de Sousa (no lado direito da fotografia), diretora da instituição, mulher com o coração enorme e no sítio certo, é ajudada por algumas irmãs italianas neste projeto. Projeto grandioso e a transbordar de amor!
Adoro viajar. E, antes desta pandemia, fazia algumas viagens em trabalho e em lazer. Conheci ao longo dos anos muitas histórias apaixonantes de pessoas e das suas vidas. Histórias alegres, tristes, surpreendentes, inspiradoras. De pessoas admiráveis e com uma força que achei sobre-humana. A da mãe da criança sorridente da fotografia é uma delas.
Quando me perguntam qual a maior diferença que vi entre os países que visitei, digo sempre o mesmo: a relação que as pessoas têm com a maternidade e com a morte.
Mas da morte falaremos noutro artigo, que hoje quero falar-vos de Vida e de Superação.
A relação com a maternidade e com o nascimento dos filhos é muito diferente de país para país. Principalmente em África, continente de que tanto gosto.
Após algumas viagens a Luanda, uma amiga e colega de trabalho, resolveu, após um jantar com muita conversa – como foram, aliás, todos os que vivi em Angola! – levar-me a ver as redondezas da maternidade. Fiquei impressionada! Havia filas enormes de mães à espera, deitadas no chão, e algumas (apenas algumas) com familiares a acompanhá-las. Perguntei: mas o que fazem aqui? Esperam pela sua vez – disse-me a minha amiga. Vivem nas províncias, muitas vêm a pé, e esperam até à hora de parir (sim, e utilizei o termo que queria utilizar: parir) para terem um pouco mais de condições dos seus filhos nascerem e sobreviverem. E os familiares estavam ali sabem para quê? Para lhes levarem comida quando tivessem os seus filhos, já que a maternidade não a oferece. O país dos petrodólares (cada vez menos, mas ainda assim…) tem uma das maiores taxas de mortalidade infantil do mundo. E estas futuras mães esperavam que os seus filhos não contribuíssem para essas estatísticas…
Em contraponto, na Finlândia desde há 75 anos que todas as mulheres grávidas recebem um kit de maternidade do governo. Um kit democrático, desenvolvido para dar a todas as crianças na Finlândia um começo de vida igual, independente da classe social. O kit inclui uma caixa, um pequeno colchão, lençóis, fraldas, roupas, produtos de banho para o bebé e brinquedos, e a ideia é que a própria caixa seja usada como cama durante os primeiros meses de vida do bebé. Muitos acreditam que este kit ajudou a Finlândia a alcançar uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo, com uma morte por cada mil nascimentos.
Existem várias desigualdades neste mundo e para todos, e uma delas é desde logo decretada à nascença. Para mães e para filhos.
No total, a África Subsaariana e o sul da Ásia representam cerca de 80% das mortes maternas e infantis.
Oito dos dez países mais perigosos para se nascer estão localizados na África Subsaariana, onde as grávidas têm menos hipóteses de receber assistência durante o parto devido à pobreza, às fracas condições de assistência médica e aos conflitos existentes nesses países.

Tenho uma amiga guineense que diz que uma mulher, tendo parido ou não, é mãe dos seus filhos e dos filhos dos outros. Na Guiné Bissau, outro país com grande taxa de mortalidade materna e infantil, há uma expressão para isso e que ela me ensinou: “padida di dos mama”.
Sobrevivem mais gestantes e crianças hoje do que nunca, de acordo com as estimativas de mortalidade infantil e materna divulgadas no final do ano passado pelas Nações Unidas, e lideradas pela UNICEF e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por norma, em qualquer casa e em qualquer parte do mundo um nascimento é uma ocasião de muita felicidade. No entanto, em alguma parte do mundo, a cada 11 segundos, um nascimento é uma tragédia familiar, pois a cada 11 segundos uma mulher grávida ou um recém-nascido continuam a perder a vida.
E, em qualquer lugar do mundo, os meninos das mães – e das tias, das avós, das madrinhas, das amigas das mães – as mulheres responsáveis pelos seus filhos e pelos dos outros de que a minha amiga guineense fala são d’oiro, d’oiro fino…






