Crónica

MAGUSTOS E ÁGUA-PÉ_ dos lugares especiais

Quem nunca foi a um Magusto com Água-pé, numa Adega

Se a frase de cima fosse pergunta, a resposta seria…não sabe o que perde!

Por altura do São Martinho, antes, depois, quando apetecia, quando algum dos amigos desafiava: E se fizéssemos um Magusto?

Estive em vários, uns mais preparados que outros, eu tendo sempre para o improviso, para o que não preparamos, sei-o mais espontâneo, mais autêntico, mais genuíno e talvez por isso aprecie mais, assim.

Em Oleiros, quase todos têm uma adega, algumas perto ou mesmo parte integrante das hortas, em lugares que ninguém desconfia, outras anexos das próprias casas. Umas mais rústicas que outras, algumas com toques e tiques femininos (algumas tinham paninhos com piqué à volta, ou até naperons), mas a grande maioria são cavernas masculinas, refúgios de amigos, são sempre lugares especiais.

As paredes muitas de pedra, chão de cimento, ou lajes da ribeira e lá dentro uma lareira, depois, depois, era arranjar as castanhas que normalmente eram dos castanheiros das próprias famílias, já ali jaziam, despidas dos seus ouriços, inanimadas, só à espera de serem lascadas e espevitadas pelo sal, muitas vezes pegava-se fogo à lenha, enquanto decorriam os restantes preparos que incluíam, que o grupo se acomodasse, havia frio lá fora, por vezes chovia. As tarefas eram mais ou menos intuitivas sendo pouco ou nada necessária uma voz de comando.

O aroma que se começa a sentir logo ali é uma mistura de lenha e fumo a que se somam o cheiro a castanhas, que entretanto já estalam, com o cheiro do vinho, logo que as hostilidades se iniciavam, as pipas começavam a ser primeiro lentamente drenadas, depois a velocidade a que se enchiam os copos, aumentava. O auge era provar o vinho novo, a tal da Água-pé.

Neste momento os mais entendidos descobriam-lhe sabores a madeira, a flores e a frutos, que não uva, discutiam a cor, mais clara, mais translucida, e a adjectivação era vasta e farta, a competição era ponto de gala: – A minha é melhor que a tua! Inevitável, tiravam-se teimas, não eram poucas as vezes em que alguém saia para ir buscar um garrafão ou uma garrafa das suas, para sujeitar à apreciação dos restantes comensais.

As castanhas eram assadas muitas vezes diretamente sobre as brasas cobertas com caruma, ou agulha de pinheiro, quase em cinza, o sabor é inexplicável, não há nada que se lhe compare, eu não tenho léxico para uma descrição que lhe faça justiça.

Estes convívios, quando preparados com antecedência tinham pormenores de requinte e malvadez, por vezes havia uma canja de uma galinha criada ali mesmo, paredes meias com a adega, que fervia numa panela de três pés, logo ali ao lado em cima das mesmas brasas, aqui incluíam-se o carinho e o esmero da mãe, da avó ou de uma tia do dono da adega, que se estendia também a umas filhós acabadas de fritar ou a umas broas de milho acabadas de cozer.

Saudades destes Magustos e da roda de amigos à volta das brasas, das castanhas e do vinho, simples assim!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.