Crónica

Amigos, Adegas e Abaladiças

Já numa outra crónica escrevi sobre adegas, mas num contexto de magusto e água-pé, desta vez foi no final de julho. Há crónicas que não me saem logo, talvez porque precisem de alguma distância e pousio para ganharem corpo e deixar evaporar a pieguice fácil, esta é uma delas.

Começou por ser um desafio lançado na Resina, um convívio resineiro, para nos juntarmos ao fim de muitos meses a conviver através dos écrans e das chamadas de vídeo. E assim foi, no dia marcado as borboletas já nos afloravam os espíritos e cá de casa seguiram mais dois forasteiros, que sabendo da farra quiseram juntar-se, o local chegou-nos por via tecnológica, com indicação de que o caminho era de terra batida e acidentado à chegada, que o que é bom (quase) nunca é fácil, conscientes disto mesmo seguimos, levamos um farnel para partilhar. Por ali, o “traz um amigo também” é música que se canta de verdade.

A chegada desembrulhada do caminho de pó, foi de falta de contenção, e deram-se abraços balançados com o peso distribuído entre um pé e outro, não conseguimos fazer diferente. A mesa já estava posta, fomos acrescentando o que chegava, os mais pequenos andaram por ali, soltos e livres, surpreenderam-nos com os seus sonhos e planos, o que só acontece quando os escutamos, quando eles se sentem parte. Os mais crescidos entraram na adega e rapidamente tomaram assento como se se conhecem da vida toda, e sem que tivessem pestanejado uma dúzia de vezes já os copos se voltavam a encher, claro que são pequenos os copos das adegas!

Ali logo ao lado corre uma pequena ribeira, que empresta ao lugar o seu nome no masculino e que confere frescura e um som de embalar à paisagem. Estivemos em conversas fáceis, mas nem por isso menos significativas, assim como as pedras de xisto encavalitadas das paredes, quisemos saber das vidas uns dos outros, de quem veio de fora e de quem sempre esteve ali. 

Tudo ali é rústico, autêntico, despretensioso e genuíno, ou seja tudo ali é luxuoso. Luxo é: cortar uma fatia de queijo ou de broa com um canivete, é sentar numa pedra ou numa cepa de árvore, é ficar na sombra recortada da vinha que se faz alpendre, ou latada, e ter os recortes das folhas sombreadas, é não haver formalidades a cumprir, é apenas e não é pouco: Ser e Estar. E podia continuar as várias formas de que o luxo se reveste, lamentando muito quem nunca esteve assim: num lugar como este onde a amizade se espalha de forma fácil. 

Sem pausa, num compasso agudo e numa cadência sem respiração, os líquidos saem das garrafas pela mão do anfitrião numa generosidade sem limites e com uma pequena descrição ora da sua origem, ora do alambique e das mãos que os engarrafaram, provamos e degustamos o que de mais puro e original se faz por ali, versamos entre o Medronho, o Callum simples e a Jeropiga do último. Partilhamos com quem não sabia que este vinho é histórico, que é raro, que é de Oleiros, que as videiras que os produzem são únicas e resistiram à filoxera que atacou os vinhedos europeus sem piedade no século XIX, (Filoxera, uma palavra que não me ocorreria escrever) e com muita convicção, ainda que sem saber se é verídico ou não, que a sua produção remonta à época medieval, os mais audazes anteriorizam-no. Sempre conscientes do privilégio que aquele momento significava.

E a tarde escorreu-se-nos pelas gargantas como o tempo por entre os dedos, o Sol já tinha deixado de brilhar lá no alto da serra, já estávamos à sombra, quando chegou o momento sacramental: a abaladiça! Tenho certo que o copo da despedida mais não é do que a derradeira tentativa de não terminar aquilo que é bom. É que uma abaladiça, ali nunca vem só. 

E eu, ingénua e desatenta às conversas que vinham do interior, nem percebi que era apenas uma abaladiça daquele lugar, mas não era a última intenção liquida que o grupo tinha, é que do interior da adega saíram já com outro destino secreto traçado, que tínhamos que ir, que lá havia tesouros para descobrir. E se dissemos, fizemos! Em cortejo que a procissão ainda vinha longe, lá fomos, este outro lugar também mágico não me era desconhecido, já por ali tinha parado noutras dezenas de anos atrás. 

E dali também saíram as maiores preciosidades de barris e garrafas, numa degustação ao alcance de poucos. E porque sabemos que a amizade não tem preço e nem serve interesses, brindamos a presentes e a ausentes, com a certeza de repetir os lugares onde somos felizes!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.