Crónica

A importância de se chamar PROFESSOR

Há meninas e meninos para quem a leitura e a escrita não são decorrências simples, nem tão pouco intuitivas como para a maioria. Para alguns, os fonemas que substituem as imagens que lhes povoam as cabeças, teimam em não sair, nem com muitas cópias, nem com muitas correções, simplesmente porque a velocidade a que pensam em imagens é muito superior à sua capacidade de passarem a pensar em fonemas e grafemas, que são letras que juntas formam sons, que juntos formam palavras e que juntos ainda formam frases.

Este diagnóstico é difícil, muitas vezes mistura-se com imaturidade ou com dificuldades visuais, é preciso estar atento, o papel fundamental aqui é o do Professor, mas nem sempre é fácil, sabemos todos porquê… turmas maiores do que o desejável, e por aí fora.

Neste caso, sabia-se desde o final do primeiro período do primeiro ano, primeiro desconfiou, depois alertou e por fim, testou. Confirmou-se dislexia, com outras vertentes associadas, como disgrafia. Estes palavrões querem dizer, de forma simples que há um pensamento pictórico (por imagens, é esta a primeira forma de pensamento que desenvolvemos, e que no momento da alfabetização se transforma num pensamento fonético) que não se transforma de forma simples, antes, que é preciso trabalhar muito, para que se atinja a tal transformação. Que o erro sistemático e frequente na escrita não é sinónimo nem de preguiça, nem de falta de inteligência. Que a leitura sincopada e por vezes pouco percetível tão pouco é sinal de falta de esforço ou de burrice. Estes palavrões como outros: discalculia, dislalia, etc aparecem associados às perturbações da aprendizagem e sabe-se hoje, que têm pouco ou nada em comum com a inteligência.

Não é pouco frequente que escrevam dez vezes a palavra mãe, e que há décima primeira vez escrevam: mai. São e foram-no ao longo dos anos, muitas vezes mal compreendidos estas meninas e meninos, hoje são-no menos, mas ainda assim, mais do que seria desejável. O trabalho que se faz com estas crianças é duro, porque ficam resistentes e por vezes até opositores, quem não ficaria resistente a ler palavra a palavra, tomar consciência, olhar e ver como as letras se juntam e só depois escrever, sem hesitar, porque se hesita apaga e começa de novo?…

E assim correm os dias, e estas crianças percebem que são diferentes dos demais colegas, que a sua leitura não é tão rápida, que as suas composições e ditados são uma mancha gráfica vermelha assinalada pelo Professor, palavra a palavra, que têm que corrigir e escrever várias vezes novamente. Piora um pouco, quando eles mesmos têm noção que não é o número de vezes que escrevem aquelas palavras que as torna mais familiares ou mais suas amigas…

No final do primeiro período do segundo ano, já grande parte da capacidade de leitura e de escrita simples e de frases curtas foi aprendida, é suposto as pequenas mãozinhas desenharem letras e números já com alguma mestria, ora nem sempre é assim.
Estes meninos desejavelmente, interrompem as suas semanas, para fazerem terapia, para que trabalhem a tal consciência fonética e gráfica que não conquistaram de forma natural. E assim em pequenas sessões de leitura e escrita rabiscam letras que de mãos dadas umas às outras formam palavras e outras que não dão as mãos para assim se formarem outras palavras. Trabalham muitas vezes a leitura antecipada dos textos que serão lidos nos dias seguinte, para que não sejam apanhados desprevenidos, numa primeira leitura, que em voz alta os deixa muito inseguros e expostos. Os exercícios de escrita são essencialmente frases curtas, com palavras que já conheçam. É fácil antever que o teste de Português antes das férias do Natal, e a sua composição versarão sobre isso mesmo, assim, treina-se a escrita de frases como: O Natal é a festa da família. Lá fora está frio, cá em casa está quentinho! Ou ainda: À noite abrem-se os presentes.

Pois sim, mas já depois do teste quando se pergunta que tal correu, havia composição, o que escreveste?
E com os olhos a brilhar explica: Duas fotografias: uma com uma escadaria e dois meninos lá em cima, a outra com os meninos ao pé do saco de presentes
Fácil, escreveste então sobre abrir os presentes, a alegria…
Ganha novo folego, intensifica ainda mais o brilho do olhar e responde: Não, claro que isso responderam os outros meninos todos! Eu falei sobre um saco de pózes mágicos que transporta para outra dimensão!

É que não é invulgar que estas crianças tenham uma imaginação inversamente proporcional é sua capacidade de leitura e de escrita. O que é fenomenal é que perante esta incapacidade de escrever o que se pensa, o que se sonha, tenha havido um Professor, que nunca utilizou vermelho para corrigir testes, e que perante duas frases completamente ilegíveis, tenha chamado este menino, lhe tenha pedido que lhe respondesse oralmente, que lhe contasse aquela estória e que tenha dado 20 valores!!! à sua criatividade.

É fundamental que não se façam sentir as impossibilidades a estas crianças, mas antes que se lhes possibilite um desenvolvimento à medida das suas capacidades, passando assim a incentivá-las para continuarem, em vez de as fazer sentir a soma das suas incapacidades! Esta aprendizagem dura toda a vida, quando um Professor se vincula afetivamente com os seus alunos, fazendo parte do seu processo de crescimento, as dores deste crescimento são muito mais suportáveis.

É esta a importância de se chamar PROFESSOR! Conheço um, que atravessa todos os anos, todas as classes de meninos e meninas a quem deu aulas e que já licenciados se referem hoje, anacrónica e teimosamente a ele como: o MEU PROFESSOR!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.