Crónica Opinião Petricor

A Festa

(Fotografia roubada no site da Pirotecnia Oleirense. Bem haja especial por, em todas as festas, nos terem feito sonhar e acreditar que tudo era possível!)

Todos aqueles que não são “sem terra” têm pelo verão as festas populares como forma de se divertir. Por esta altura quem é de Oleiros comemoraria as festas em honra de Santa Margarida. Tempos de reencontro, entre conterrâneos e amigos, que não se vêem durante todo o ano e que a pandemia nos impediu de concretizar. Um ritual anual a que nos habituámos e a sua falta está a ser difícil de gerir, e penso que não será só para mim, não é assim?

As teorias sobre a festa, em antropologia, costumam defini-la como um evento com dois significados principais: negar ou destruir simbolicamente a sociedade tal como se encontra estabelecida, ou reafirmar o modo como esta se encontra organizada, através do enfrentamento, por um curto período, do caos proposto por ela. E porque é isto tão importante para nós? O que pode motivar o apelo de festa? A festa traz alegria, bem-estar. E a festa, o encontro da festa é das poucas atividades humanas em que o nosso bem-estar não põe em causa o bem-estar de outros, ou seja, os interesses não são concorrenciais, pelo contrário, potenciam-se. Quanto mais festivo eu estiver, mais festivo está o outro, alimentamo-nos disso. E como é tão raro haver relações entre os humanos que não sejam concorrenciais, a festa é um fenómeno social muito agregador. Um ato coletivo subversivo, também. E democrático, habitualmente. Numa festa somos todos iguais, a dança conjunta elimina as diferenças sociais…

A festa é uma espécie de suspensão do tempo, em que nós celebramos na esperança que o tempo continue. Estamos juntos, esquecemo-nos do tempo passado e temos esperança no tempo futuro. Esta quebra no contínuo, a paragem do tempo que uma festa nos permite, é também quase sempre acompanhada por comida e música. Partilhada. E muita. A festa é sempre uma festa dos sentidos, e o palato e o ouvido regozijam-se em particular. E os excessos, nos dias de festa, são sempre permitidos.

A festa é uma necessidade, para o corpo e para a alma. O tal enfrentamento (por um curto período de tempo) do caos provocado pela festa é uma necessidade humana. Não é assim de estranhar que a maior desobediência civil nestes tempos de pandemia passe pelas festas. Com riscos e consequências, não nos esqueçamos. Mas falava da necessidade que temos de festa… A festa funciona como uma válvula de escape em vidas rotineiras que, mais ou menos, todos temos. A festa repara o espírito, repara as emoções. A sociedade obriga-nos a uma compostura que não é boa para o nosso lado animal. Se tomarmos alguns comportamentos, como dançar no meio da rua, por exemplo, podemos ser tidos como loucos. Lembro-me sempre de um amigo muito querido, angolano, que quando soube que vendeu um dos seus quadros, começou a dançar no metro de Lisboa, por estar feliz. Só isso. E foi interpelado por um polícia, achando-o possivelmente louco ou bêbado. Ora, a festa é essa válvula de escape que nos permite ter comportamentos que nos são arredados do nosso quotidiano habitual: cantar, dançar, excedermo-nos…

A festa é uma propaganda da felicidade. Uma boa propaganda, já que podemos ser todos felizes ao mesmo tempo, como referia atrás, sem que a felicidade de um retire a do outro, pelo contrário, a potencie. É uma invenção muito sábia. Uma das melhores invenções da humanidade, acrescentaria!

Nas festas há sempre promessas, quanto mais não seja a de voltarmos a festejar. E a promessa de no(s) próximo(s) ano(s) dobrarmos, triplicarmos, quadriplicarmos os abraços e os momentos felizes tem sido feita por todos nós por estes tempos.

A noção de festa tem na sua génese a ver com uma noção de calendário, telúrico, com a ideia que há um tempo para semear (trabalho, esforço, sacrifício) e um tempo para colher (festa, celebração). Aceitemos os sacrifícios e agradeçamos por estarmos com saúde e vivos. Para o ano brindamos em todas as festas! Até lá, celebremos as que já vivemos! Tchim, tchim!

“Lembrai-vos que em toda a festa, tendes dois convivas a entreter – o corpo e a alma; e o que dais ao corpo, na realidade o perdeis. Mas o que dais à alma, permanece para sempre.”
Epicteto

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.