Opinião Petricor

Voar de bicicleta

Foto de Plilipp Smidli.
Um ciclista de montanha passa num campo diante de uma lua cheia ascendente. (quem não se lembra do ET?)
quinta-feira, 25 de abril 2013, em Entlebuch

Poucas coisas me dão uma sensação tão grande de liberdade quanto a de andar de bicicleta. O vento na cara ao descer um trilho faz-me sentir um pássaro a voar.

Nós e a bicicleta somos um só, como se esta fosse uma extensão do nosso corpo. O elo que nos liga é um elo de amizade, que o tempo não destrói, mas reforça sob a forma de saudade sempre qua a vida nos separa. Como em qualquer boa amizade, de resto.

Nenhum de nós se esquece do dia em que aprendeu a andar de bicicleta. A primeira pedalada significa adquirir uma nova autonomia, uma sensação de fuga, o redor move-se, ganha outra dimensão, já não está parado. Que maravilhosa sensação!
A bicicleta remete-nos a certos momentos da infância e da adolescência e arriscaria dizer que estas memórias são comuns a várias gerações que cresceram por este país fora (no meu caso em Oleiros). Diria mesmo que há “memórias de bicicleta”, que no meu caso acompanham quase toda a minha vida.
Não me lembro de não ter uma bicicleta. O meu pai era soldador numa fábrica de bicicletas em França, uma das melhores, diziam, nos tempos em que o Joaquim Agostinho correu no “Tour de France”. Lembro-me bem do meu pai e tios quererem ir ver o “Tour” porque corria lá este grande português. Ciclista que ficou em 3º lugar em 1978 e 1979 e já antes tinha ganho por três vezes a Volta a Portugal em Bicicleta (de 1970 a 1972). Mas dizia eu, as prendas do meu pai passavam sempre por uma bicicleta. Para desespero da minha mãe, que achava que as nódoas negras nas minhas pernas resultantes das corridas eram demasiadas.
A minha primeira bicicleta era azul, lembro-me bem. Colei nela autocolantes sem fim que o meu pai trazia da fábrica e que também partilhava com os meus amigos. Adorávamos personalizar as bicicletas ao nosso gosto, duvidoso, acharíamos hoje, se fizéssemos uma viagem no tempo. Mas naqueles momentos sentíamo-nos os melhores decoradores do mundo.

A bicicleta ajuda a socializar e a fazer amizades. Quantos de nós não combinavam entre si fazer trilhos que queriam provar que conseguiam ultrapassar, estimulando a competitividade, tão mal-afamada nos nossos dias, mas promovendo o crescimento e a superação pessoais? Foi assim que percebi que nunca seria uma ciclista de BTT séria, o meu grande sonho na altura. A bicicleta ajudou-me a crescer, a ter consciência do meu corpo – e das minhas limitações!

As bicicletas começaram por ser um meio de transporte individual (e quem conhece África sabe o peso que estas têm em algumas comunidades, por exemplo) mas hoje em dia são essencialmente uma forma de fazer desporto e de lazer. Nas aldeias e nas cidades.
O milagre das bicicletas nas cidades devolve-lhes o estatuto de terras de aventura. Veja-se Amesterdão, não teria o mesmo encanto se não fossem as bicicletas. Ou Aveiro, pioneira nesta forma de mobilidade sustentável, não seria a mesma sem as suas BUGA’s. As ciclovias aumentam um pouco por todas as cidades e ainda bem. Podermos ter, numa cidade, o prazer da liberdade que referia é mesmo um pequeno milagre.

E sabiam que Portugal foi em 2019, entre os Estados-Membros da UE, o maior produtor de bicicletas, fabricando 2,7 milhões de bicicletas? Caso para nos orgulharmos da nossa indústria.

Andar de bicicleta rejuvenesce o corpo e a alma, este é pelo menos o resultado do estudo de uma universidade alemã de desporto. Nada que nos surpreenda, mas relembro alguns dos benefícios de andar de bicicleta, com consequências também para o ambiente – melhoria da qualidade do ar, redução de ruído e do congestionamento de tráfego.

Fonte: Internet

E quem não associa o verão a andar de bicicleta? Verão, sol e bicicletas combinam. Quem não se lembra de passar tardes – de verão, claro está! – a ver a “Volta a Portugal em bicicleta”? É, a Volta é também, por excelência, um lugar das tais memórias. Este ano, devido à pandemia, começa no próximo domingo, dia 27, dia em que cumpro mais uma volta ao sol.

Lisboa tem um programa de promoção de uma mobilidade mais sustentável, apoiando a aquisição de bicicletas novas para uso citadino (https://www.lisboa.pt/programa-de-apoio-aquisicao-de-bicicletas).

Imaginem qual vai ser a prenda de anos que vou dar a mim própria? Isso mesmo. Para sair por aí a assobiar, qual amiga do Chanquete no “Verão Azul”.
E acho que o meu pai, lá onde estiver, vai gostar de me ver voar…

“Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais.”


Herberto Helder, in “Poesia Toda”

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.