Sapatos gastos na biqueira, calções coçados e joelhos esfolados em uníssono.
A minha mãe dava-me uma pequena moeda reluzente, que parecia grande na palma da minha mão minúscula.
– Se a perderes não te dou outra!
Eu fechava-a com força entre os meus dedos, não porque tivesse noção do valor intrínseco do pedaço de níquel, mas porque sabia que o senhor António da mercearia a valorizava, e a trocava por algo que me interessava.
Descia a rua, por vezes a andar, outras a saltar com um pé depois do outro.
Entrava na mercearia, e era inundado de uma explosão dos cheiros mais distintos. Detergente, sabão azul, bacalhau salgado pendurado na porta de madeira lascada e ressequida, à revelia de uma higienização normativa que felizmente, estava longe de chegar.
O senhor António era muito alto, ou era eu muito baixo, tinha os olhos enormes, e tufos de cabelo desgrenhados por cima das orelhas, que andavam sempre à sombra daquelas rebeldes heras capilares, e umas calças de fazenda que desmaiavam até aos sapatos cansados de se calçar.
Curvava o tronco em direção ao balcão, para me poder ver os olhos, e perguntava.
– É um gelado Marco?
Eu acenava com a cabeça, sem emitir um som. Ele saía do balcão, dirigia-se à arca dos gelados, puxava a porta da arca com força, baixava-se, e depois de estar com a cabeça dentro da arca, perguntava, com o som da voz abafado.
– Queres de laranja ou de ananás?
– De laranja senhor António.
Do fundo da arca, ouvia-se a voz alterada.
– Acho que vendi o último há bocado, pode ser de ananás?
Eu não gostava de gelados de ananás, mas gostava ainda menos de nada, então anuía, conformado.
O senhor António tirava a cabeça da arca, com o cabelo ainda mais despenteado, e com um invólucro muito prensado e maltratado, que eu sabia que depois de conseguir descolar quase todo o papel da superfície da guloseima, se tornaria algo apetitoso.
Quando a gulodice era maior, acabava por ingerir uma mistura de pasta fina de celulose, com aquele corante que simulava o sabor do ananás.
Abria a mão, com alguns vincos em forma de moeda, de segurar com tanta força.
O senhor António agradecia, e eu vinha-me embora todo contente.
Enquanto degustava aquela iguaria que me gelava a boca, caminhava por um pequeno carreiro térreo, criado pela insistência das solas na erva. Ao fundo do denso tapete de erva, avistava a Palmira, pastora idosa que, sentada num pequeno monte de terra, ia soltando uns gritos estranhos e imperceptíveis, como quem, pela força do ofício, tenha aprendido a comunicar com o teimoso rebanho.
O meu telemóvel da altura tinha inúmeras aplicações, uma permitia-me, com o auxIlio de uma palha, fazer surgir grilos das tocas, outra, ir comer cerejas diretamente da árvore, e muitas outras que surgiam das nuvens mais criativas da alma.
Os tempos mudaram tanto, que é provável que nunca consiga explicar ao meu filho, a felicidade que sentia naquelas tardes longas e cheias. Acho que já nem eu conseguia explicar a mim próprio esse tempo, se não o tivesse vivido.
Foto: http://contamecomoera.blogspot.com/






