Crónica Opinião

A semântica, os seus significados e as suas implicações

(esta crónica é uma proposta de reflexão sobre semântica, é curta e chata que dói, mas hoje apeteceu-me assim)


Ontem assinalou-se o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, e claro, saltaram e bem, as bandeiras comemorativas- arco iris LGBTI para a net e para a rua, nalgumas cidades, noutras não. Eu vou saltar o momento da discriminação e das agressões sobre pessoas LGBTI, não que não sejam importantes, que são, e muito, mas há ótimos artigos, webinares e documentários que podem ler e assistir sobre o tema.

Qualquer forma de homofobia é uma violação de Direitos Humanos, comentários de ódio e graçolas que todos conhecemos, que já ouvimos, são abjectos, não é sobre estes que vou escrever. É sobre outros, que se acham mais bondosos, mas que me deixam com os cabelos em pé quando ouço/leio frases como: “Tolerância nas/para as questões de género”, ou dito de outra forma: “Temos que ser tolerantes com as questões do género”, como assim “tolerância”?! É que tolerância é equivalente à ação ou efeito de condescender, de ser tolerante, transigente, complacente; ter bondade. E não consigo aceitá-la associada às Questões do Género, não concebo condescendências, quando antevejo uma qualquer posição superior ou dominante que valida ou permite outra… É que as palavras contam, contam muito, formam ideias e valores.

Enquanto persistirmos na utilização supostamente bondosa de semânticas como: “Somos uma sociedade tolerante para com os indivíduos LGBTI”, estamos a perpetuar a tal supremacia, a preponderância de uns que condescendem os outros! Eu disse, logo após o título, que a crónica é chata que dói, ora perspetivem a questão na tolerância zero para a questão das velocidades nas estradas. O que está por detrás desta ideia é que não serão toleradas infrações, porque colectivamente se estabeleceu que há uma velocidade que é segura e aceitável, e que não serão toleradas velocidades excessivas. Esta mesma ideia não pode ser transposta para as Questões de Género, ou estamos a analisar pela bitola da “normalidade heterossexual” ou da maioria, ou outra qualquer, e a dizer que fora da maioria normal e heterossexual devemos tolerar?!

Tenho a mesma dificuldade em aceitar que um peixe tem em sobreviver fora da água, que alguém considere que tem que validar a orientação ou a expressão de género do outro. De onde subjaz essa validação? Qual a divindade que os veste?

Não é de tolerância que se trata quando às orientações ou à generificação de cada um dos indivíduos, o que temos é que parar com as dominâncias, com as normalidades preponderantes, com as generalizações, a-c-e-i-t-a-r, e incluir, é de aceitação que se trata! Vá, vou esticar só mais um bocadinho a corda, lamento pelos menos tolerantes à elasticidade, e ir mais além e contribuir para uma sociedade mais justa, mais inclusiva e mais igual!

A mim parece-me que revestidas de bondade, estas expressões que se tornam semânticas quotidianas nas quais não pensamos, mas nas quais devemos pensar e devemos analisar as responsabilidades individuais no perpetuar de uma construção que coloca uns a validar outros. É atentatório, é tonto, não é construtivo nem inclusivo!

Onde eu vejo aplicada a expressão tolerância zero é para todas as formas de violência contra pessoas, qualquer que seja o seu género ou a expressão do seu género!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.