Opinião Petricor

“80? Ah, vou adiar!”

Quando a minha avó materna morreu, uma amiga oleirense enviou-me uma mensagem que dizia: “não morreu só a tua avó. Morreu também a personificação da avó doce e terna que todos temos vontade de ter.”
A minha avó era a pessoa mais terna e doce que conheci na minha vida, a minha amiga tinha razão. E a pessoa mais resiliente também. Acontecesse o que acontecesse, tinha um sorriso nos lábios para todos. E todos os dias nos dava uma lição de vida com esse sorriso. A minha avó morreu aos 91 anos, rodeada do carinho de filhos, netos… e da sua gata Joaninha.
Costumo dizer que não faço a vida por menos, portanto até aos 91 estou por cá, é uma certeza. E com um sorriso também, espero. Mas, não sei se por estar a caminhar a passos largos para os 50, a velhice e a forma como se envelhece em Portugal têm sido temas que, ultimamente, me assolam o pensamento.

Um retrato do país, divulgado na passada semana pela Pordata, revela que desde 2009 o número total de residentes em Portugal caiu 2,7%. Somos menos, e também somos mais velhos. Em pouco mais de 10 anos, o número de habitantes com mais de 65 anos aumentou 18%. Os dados mostram que, por cada 100 jovens, existem 161 idosos, contra os 118 em 2009. Um dos suportes desta subida é o aumento da esperança média de vida. Em 2008, era de 78,9 anos, passou para 80,9 anos em 2018.

É bom que vivamos mais tempo, desde que envelheçamos bem.
O envelhecimento da população continua a exigir uma reflexão prioritária por parte de todos nós: famílias, governantes e sociedade em geral.
A proteção dos idosos e a garantia do direito a uma vida com dignidade estão consagradas na Constituição da República, mas também na Declaração Universal dos Direitos Humanos, art.º 1.º e art.º 25.º e enunciadas nos Princípios das Nações Unidas.
Os direitos a participar ativamente na formulação e implementação de políticas que afetam diretamente o seu bem-estar, a transmitir aos mais jovens conhecimentos e habilidades são alguns deles. Há outros – o direito à autorrealização, à saúde, à dignidade, à informação, à alimentação, à independência, à assistência – consequentes deste.
A implementação de medidas que estimulem o envelhecimento ativo e saudável, por exemplo, exige o envolvimento de vários sectores e de diferentes políticas intersectoriais. E deles. Sim, os idosos deveriam participar nas políticas que melhor se lhes adaptam.
Com a ajuda dos mais jovens, claro, numa troca intergeracional que a todos beneficia.

Esta semana li que, aquando do aniversário do Carlos Drummond de Andrade (grande poeta!), o António Carlos Jobim (grande músico!) lhe ligou e perguntou: ‘Puxa, Drummond, como é? Você vai fazer 80 anos? Drummond respondeu: “Ah, vou adiar!”…

Adiando ou não, o que todos queremos, aos 80 ou aos 90 anos, é envelhecer em paz e com os nossos. Todos envelhecemos – e é bom que assim seja – portanto: cuidemos dos nossos com carinho, com amor, mas façamos promover políticas públicas que nos deixem envelhecer com dignidade.

Pois como cantaria o Arnaldo Antunes:

“Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr”

E todos nós pensamos o mesmo:

“Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer”

Até aos 91, acrescento eu!

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.