Poesia

Instantes perpétuos

Instantes perpétuos

As sombras ficaram na praça
Em ledos brindes de afeto
Os corpos jazem em casa
A teclar jargões dispersos
Não há uma voz sisuda
Que lhes penteie os sentidos
À falta de um ombro amigo
De um sorriso conivente
Ela fez um copy paste
De um poema do Drummond
Juntou foto de família
De um jantar em tempos idos
Que se eternizou no tempo
De uma rede social
P’ra mostrar que a vida é bela
Mesmo quando a ceia é magra
sempre em vestido de donzela
Mesmo de avental pela casa
Foi-se abaixo a ligação
Perdeu-se a conexão vital?
O faisão au maitre d’hotel
Parece menu de hospital
Vou deitar a solidão
Que amanhã é o mesmo dia
Não há de quem me despeça
Mais uma cadeira vazia
Este escuro que me assola
Sempre que eu me desligo
Toma conta do vazio
Que tanto sinto e não digo
Ainda bem que os que me vêem
Não me podem decifrar
Elogiam o sorriso
E o brilho no olhar
Lá fiquei eu a brindar
Com todos os que não estão
P’ra que todo o mundo saiba
Que mesmo que (eu) me não sinta
Que Mesmo que (eu) me não veja
Eu tenho o mundo na mão

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.