Geral

Ratos azuis e papéis de música

Num momento estávamos todos
Copos e risos em volta de uma fogueira
Todos te dedicavam atenção e curiosidade
Voltaste quando já ninguém te esperava
Nem eu, que já tinha aprendido a viver sem tirar os pés do chão
Estavas igual, ou talvez não, ninguém fica igual
O azul-mar que trazes nos olhos é o mesmo, denso e profundo
Só mais sombrio, menos iluminado que antes
De um momento para o outro a tempestade caiu-nos em cima
O céu fazia a festa, chovia sem clemência
Cada um correu como e para onde pode
Olhei e não vi ninguém, não te vi, corri noutra direcção, para onde ninguém tinha ido
O barrulho da chuva ocupava o espaço todo
Mas tu estavas ali, sem abrigo, com o céu a cair-te em cima
Ensopado até aos ossos mais pequenos e escondidos
Aquilo não era chuva, era um oceano inteiro a cair-nos em cima
Queres dançar?
Como assim… dançar?
Daaannnçççaaarrr, arrastaste o verbo quase até ao infinito
Como podíamos dançar, se saíste sem voltar
Sem avisar, sem me avisar?
Durante este tempo pensei-te sempre, dizes
Pensei-te sempre que o sol dava o último suspiro antes de mergulhar, continuas
Pensei-te enquanto fechava os olhos
Sempre que via ratos azuis e papéis de música
Ratos azuis e papéis de música, como assim?
Por nada e por tudo
Eu deixei de te pensar, nem nunca mais te imaginei, disse
Quando foste, não acreditei, mas voltei a pisar o chão
Não voltei a ver o sol mergulhar, deixei de acreditar
Passei a ser igual, igual a todos, e todos passaram a ser iguais
Pensei que ia ser fácil, ir sem voltar, sem avisar, retomas
Gosto de tempestades que mais ninguém conhece, continuas
Não gosto de faróis, gosto de mar escuro e agreste, segues
Se eu chorava ou não, era indiferente entre a água que caia
Pensei em ir, sem voltar, voltas, mas não deixei de te pensar
Não te vi aproximar, mas senti-te
Senti-te como sempre, como antes e voltei a não ter os pés no chão
Dançámos com a suave violência de sempre
Passando por novembro, à espera de dezembro

Música: Marco Figueiredo

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.