Geral Opinião

Chapadas de luva branca

Imagem retirada do blog com o mesmo nome.

É costume ouvir-se que há portugueses em todos os cantos do mundo e de todos eu não sei, mas tive algumas situações engraçadas quando morava em Londres.

Lembro-me de ir à mercearia da esquina e encontrar uma colega da Escola de Educação de Castelo Branco. Ela era de EVT e nós nem sequer éramos próximas, mas fomos encontrar-nos ali, num bairro do sul de Londres onde éramos vizinhas. Rimos muito.
Era muito comum ouvir falar português por todo o lado e depressa aprendi que não se podia falar muito alto porque o mais provável era serem portugueses e responderem-nos.

Havia de tudo, a malta simpática que ao ouvir português vinha ter connosco e fazíamos logo ali uma festa e os outros que baixavam a cabeça pensando “Bolas, que não me livro dos portugueses!”.

Houve uma altura em que trabalhei numa loja de roupa especializada em cachemira e pasheminas (lenços de seda e cachemira) bem pertinho da Praça de Trafalgar, por isso era comum entrarem muitos clientes portugueses, nomeadamente muitas tias armadas ao pingarelho.
E foi o que aconteceu nesta história que vou contar.

Apareceram-me duas tias, uma mãe e uma filha, todas queques e muito arrogantes. Fui ter com elas, percebi que eram portuguesas mas não me descosi. Passaram o tempo todo a gozar comigo, com as minhas colegas e com a loja. Divertiram-se imenso enquanto diziam as coisas mais horríveis. Eu mantive-me tranquila, a ferver por dentro é certo, mas sempre cordial e a responder em inglês.

No final, fui com elas à caixa e depois de pagarem, dei-lhes os sacos e disse:
– Então boa tarde e voltem sempre!

Elas congelaram e com a cabeça enfiada num buraco imaginário disseram:

– Ah, a menina é Portuguesa…

– Sou, desde pequenina!

A vergonha era visível e soube-me a mel. Ainda pediram desculpa entredentes.
Hoje, sempre que me sinto mais em baixo, lembro-me daquelas duas caras petrificadas e sorrio sempre.

Espero que elas tenham aprendido a lição, eu também aprendi uma, que uma chapada de luva branca vale mais que todas as palavras existentes no mundo.

Autor

Tradutora por habilitação, professora por profissão, viajante e curiosa pelo mundo por opção.