Geral

O dia em que o Zé organizou aquele jantar

Sempre pela mesma altura, era um hábito. Eram bifinhos com cogumelos que é aquele prato que não desagrada à maioria. O vinho à discrição, claro, e salada de fruta para sobremesa. Correu tudo como de costume, até os comentários que se seguiram: “Sempre bifes com cogumelos!”, “O vinho era a zurrapa de sempre”, “Sempre igual”, “Mais do mesmo, isto nunca muda!”.

Ora, o Zé-bondoso (como era chamado), empenhado e bem intencionado, apesar de tudo, voltou a marcar um jantar. Tendo aprendido com as experiências anteriores, resolveu tentar surpreender. Estudou com a cozinheira do restaurante o que seria possível confecionar que fosse mais sofisticado – mantendo o preço acessível – e arranjou forma de poder ser ele próprio a levar o vinho. A sobremesa era uma autêntica iguaria, tacinhas de Alfajor Cremoso com alternativa de Mousse de Chocolate Belga.

O preço, 1 euro mais caro, foi o primeiro ataque que o Zé aparou com o peito. Os sabores, provocadores, provocaram também os comentários acres e acidulantes, difíceis de digerir. O vinho, da sua própria produção parecia que afinal trazia saudades da zurrapa dos jantares anteriores. Nada parecia bem feito.

Deparou-se o pobre coitado com o dilema de continuar, ou não, a organizar os jantares. Estes encontros, para os quais ele se entregava inteiramente e não via o seu esforço reconhecido. Se por um lado se dizia sempre que era preciso mudar, por outro, afinal ninguém queria a mudança. O Zé, um rapaz bem intencionado, começou a ficar cansado.

Daquela vez, já saturado e “pelos cabelos”, organizou o rotineiro jantar dos bifinhos com cogumelos, com a zurrapa do costume. Fora de si, e não sendo a primeira vez que tal lhe passara pela cabeça, levou o veneno no bolso, que distribuiu pelo empratamento, minutos antes dos pratos serem servidos.

A agonia indescritível levou a uma das maiores tragédias por ali vistas. Gerou ondas de indignação, revolta e dor que duraram alguns anos. Nunca mais houve jantares. Nem de bifinhos com cogumelos. O último jantar consagrou a vingança como resultado legítimo de anos de jantares desconsolados e ofensivos.

Um dia, como outro qualquer, na parede exterior do famoso restaurante onde se deu o envenenamento que marcou toda uma geração naquela localidade, lia-se, escrito à pressa, a spray: “Se queríamos mudança eramos nós que tínhamos que mudar. Não mudem os Zés-bondosos!”

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.