Geral

22.02.20.22

Que hoje o dia é capicua, estará carregado de simbolismo para quem (quiser) acreditar. Não é o meu caso, já aqui escrevi sobre a minha falta de fé no transcendental, qualquer que ele seja. Então porquê dar um título destes a uma crónica? Porque sim, porque me apetece, gosto do grafismo, ainda que sem carga simbólica, e isso basta-me como me bastam tantas outras coisas simples.

O que nos diz o calendário é que estamos no mês de fevereiro e que por decorrência normal estaríamos a queixar-nos do frio e dos dias eventualmente cinzentos e taciturnos, só que não, a natureza decidiu diferente e brinda-nos com sol e calor. Um destempero! Não chove há meses e as barragens têm pouca água, havemos de pagar isto! Se acreditasse no transcendente estaria a rezar ou a dançar para que chovesse. Mas estaria também a rezar para que houvesse paz, na Europa e no Mundo, para que os votos dos Emigrantes não tivessem sido negligenciados, para que não tivéssemos que chamá-los a votar novamente, para que não nos esquecêssemos que a democracia somos todos, os de dentro e os de fora, que não há acordos de cavalheiros que se substituam às leis, que andamos todos doidos, e que talvez por isso não sobra ninguém para avisar.

Que já todos tivemos um amigo com Covid, ou fomos “o” amigo. Que fomos inoculados várias vezes, tantas quantas nos propuseram, que o vírus se tornou menos feroz, que de um modo geral já podemos com ele, que brevemente, pelo menos nos países ricos será mais um vírus a viver connosco. Mas não podemos ignorar que há mais mundo, que o resto do Mundo também é mundo, que precisamos do coletivo, que para vivermos precisamos que o vírus não ande sempre a mudar de cara, que para isso é necessário repartir vacinas.

Que as crianças ainda andam mascaradas e para o carnaval ainda falta, que devemos libertá-las o quanto antes, que já chega de caras tapadas, de olhares tristes, de distâncias, de afetos contidos. Que os seniores estiveram mais isolados que nunca, que alguns definham de desalento, talvez porque tenham uma noção de finitude mais presente. Que precisamos todos de reconquistar a esperança.

Que os Portugueses lêem poucos livros, estaremos a sucumbir ao imediatismo, às letras gordas dos títulos e ao scroll rápido dos dedos? Que se faz a sensação nos primeiros dois segundos pestanejados, que o resto dá trabalho e convém um certo recato, uma certa solidão escolhida, uma permanência connosco próprios que não estamos dispostos a ter? Não tenho respostas. Que os mesmos lusitanos talvez prefiram olhar para as outras casas, mesmo que através da tv e menos para a sua. Que ali conseguem identificar violências que talvez não identifiquem nas suas próprias vidas, ou quando identificam, normalizam.

E na Resina parece que hibernamos como os ursos polares durante a estação fria, mas na realidade ficamos só um bocadinho mais letárgicos. Mas vamos acordar, que há coisas a acontecer que a Exposição da Cortiçada está a decorrer em Proença-a-Nova, que a Yola Vale esteve ontem a falar -encantadoramente- sobre as texturas e sobre as paisagens revestidas de pinheiro, que os nossos Senza e o Marco Figueiredo andaram a espalhar música por lá, que o nosso Carlos Farinha está em Paris, porque “resolveu casar” Marie Curie com António Damásio para Casais de Sonho “ do colectivo Bordelovers inserido na programação da Saison Croisée Portugal / França . Vão espreitar, nas redes sociais, por exemplo.

Que em Oleiros voltaram os todo-o-terreno aos trilhos, organizado pela Pinhal Total Oleiros Aventura. Que a vida aos poucos vai voltar, se é como a conhecemos ou não, não sei. Mas vai voltar, há-de voltar, tem que voltar!

Quero voltar a rir, sem máscara, quero voltar a comer em mesas sobrelotadas, quero voltar a abraçar demoradamente e sem medo, quero voltar a dançar, quero voltar a viajar de cara destapada, quero voltar a celebrar: tudo, de alma cheia, não queremos todos? Não é por ser capicua o dia, é só porque sim!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.