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Um Conto de Natal a Várias Mãos


As crónicas desta semana serão na verdade uma só, vamos tentar escrever em sequência, e começamos por dar voz aos Resineiros mais pequenos, assim, a primeira deixa é do Joãozinho, 3 anos, que nos diz assim:

“Era uma vez um dinossauro que andava à procura do Pai Natal…”

A Yasmine, com 8 oitos, continua assim:

“Ele tinha a certeza que ia ser uma missão para um verdadeiro detective. Então, sentou-se na sua cadeira verde gigante e começou a traçar um plano: Primeiro vou pedir ajuda aos meus amigos pássaros”

Desafio lançado! Antes de prosseguirmos, sugerimos que a leitura abaixo seja feito ao som da música que partilhamos, tocada pelo Marco Figueiredo.

[Seguimento de: Sónia Henriques]

Há vinte e cinco anos que o Dino, dinossauro t-rex anda à procura do Pai Natal. Mas não está sozinho, com ele vivem vários bonecos da Lego e as suas peças, todos juntos formam uma Nave Espacial, logo ali ao lado vivem os Playmobils, com todos os seus adereços, juntos são um Quartel de Bombeiros, eles e o seu carro autotanque, várias vezes o Comandante faz a chamada e lá respondem: -Presente!, praticamente em coro, a uma só voz. Mais a baixo, vivem os livros, já muito lidos, páginas frágeis, alguns rabiscados a lápis, outros com páginas marcadas por pratas de pequenos chocolates alisadas com as unhas do seu pequeno leitor de então. Em frente está o Sabichão Mágico, com os seus ímanes e a sua vareta de metal, já retorcida e gasta. Antigamente, sempre que que lhe faziam uma pergunta e o colocavam no círculo do lado, ele girava, procurava o norte, e com a sua bengala, acertava sempre! Vizinhos do velho mago, são os carrinhos de lata, clássicos, não gostam de ser chamados de velhos, a viver entre os livros, estão os dois pássaros de folha, ainda vistosos, algumas amolgadelas na penugem logo ao lado da corda, nada demais, prontos para voarem alto, que é como quem diz, rente ao tapete. Apenas pelas mãos do seu antigo dono voavam alto.

A almofada verde, onde o pai do Joãozinho guardava o pijama, também vivia ali com todos aqueles amigos, o Dino, sentava-se nela e via-a como uma cadeira gigante, às vezes até um trono, porque se ele era o t-Rex, aquele era o seu trono!

Sempre desassossegado, o Dino, volta e meia perguntava: – Alguém viu o Pai Natal? Mas nunca tinha resposta, os da Nave Espacial estavam ocupados a descobrir outros Planetas, no Quartel dos Bombeiros havia sempre mais que fazer, o Sabichão estava cansado e deitado não respondia às perguntas, os livros dormiam um sono longo… mas ali sentado na sua cadeira verde gigante, estava determinado, tinha que encontrar o Pai Natal!

Bom, ali viviam todos juntos, na caixa que a avó do Joãozinho guardava no sótão. Este ano, a avó resolveu trazer para baixo a caixa dos brinquedos e abri-la com o neto…

[Seguimento de: Anabela Bento]

Eles eram muito amigos, mas também tinham as suas discussões (como todos os bons amigos, não é verdade?). E o assunto do que fazer quando a avó abrisse a caixa gerou discussão, mais uma vez.
O Dino sugeriu: – podemos sair todos da caixa a voar, e procuramos o Pai Natal por todo o lado!

– Mas vocês não voam, só nós! – retorquiram logo os pássaros.

– É bem verdade! – disse prontamente o Sabichão.

Os Playmobils, com todos os seus adereços, traçaram logo um plano. Os bonecos da Lego tinham desenvolvido naves movidas a energia solar para ajudar no transporte de todos os que queriam ajudar o Dino a procurar o Pai Natal. Devia resultar!

– Estamos fartos de estar confinados nesta caixa – disseram todos. Mas entretanto perceberam que tinha anoitecido. Olharam para o céu e estava estrelado…

[Seguimento de: Nuno Caldeira]

Sentia os olhos pesados. O movimento instintivo de levar as mãos à cara e os esfregar ajudou, embora apenas ligeiramente, a suportar os finos raios de sol que se recortavam nas brechas da persiana e entravam pelo quarto adentro. A manhã soalheira do dia de Natal e o ar aquecido pela lareira do piso de baixo contrastavam com o ar gélido que se vê para lá da janela. Não era a neve do cinema, era geada e bem real. O ambiente dentro de casa e o da rua pareciam pertencer a mundos diferentes.

O sonho, o meu sonho!

Nas últimas noites sonhei com um mundo de brinquedos, mas nos sonhos era sempre de dia. Nunca anoitece nos meus sonhos. O que sonhei esta noite foi um sonho diferente. A memória do céu estrelado – e em particular daquela estrela cintilante e brilhante, que é agora a última imagem que guardo do meu devaneio fantasioso – tornou-se cada vez mais clara.

Desci as escadas de madeira, descalço, e assim que piso a laje em tijoleira da sala no rés-do-chão tive a certeza que até então não estive bem acordado. O frio despertou-me e fez-me dar conta da realidade. Voltei a lembrar-me dos legos, dos playmobil e de tantas coisas que pedi ao Pai Natal.

Só quando acabei de comer a rabanada e de limpar parte do açúcar da cara é que olhei para debaixo da árvore de Natal e reparei nas três caixas coloridas. O papel de embrulho que eu puxava de um lado e do outro parecia estar contra mim. Sentia uma ansiedade, agradável mas simultaneamente aflitiva, que me fez perder a noção do tempo e do espaço.

O papel parecia não acabar, os laços emaranhavam-se e as caixas pareciam gigantes… Tentei ser o mais rápido que consegui, mas demorei-me o mais que pude.

Hoje, 25 anos depois dessa manhã de 25 de Dezembro, sei que a minha excitação não me deixava reparar na cara feliz com que os meus pais me olhavam no momento em que abro finalmente as caixas e mexo e remexo as peças dos Lego, Playmobil e dos dinossauros. Mas a memória desse dia e de todos, permanece viva, cada vez que o meu filho, agora com a idade que eu tinha nessa altura, inventa uma nova nave espacial com os Legos, re-constrói o Quartel dos Bombeiros ou diz que sonhou com um céu estrelado e com uma estrelinha brilhante.

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