Geral

Sara Tavares

Até 1987 tínhamos apenas dois canais, a RTP 1 e a RTP2. O primeiro canal privado foi a SIC.

Em 1993 começou o programa Chuva de Estrelas. A malta ia lá imitar cantores e cantigas famosas e aquilo tornou-se um caso sério de popularidade.

Sara Tavares concorreu. Morava com a avó e chovia em casa. Concorreu porque queria ajudar a avó. Tinha 15 anos. Levou um tema da Whitney Houston. Ganhou e arranjou a casa.

Nesse mesmo ano defendeu Portugal no Festival da canção com o tema “Chamar a Música”.

Tinha Portugal a seus pés, mas isso não lhe interessava. Esta Nova Lisboa que o Dino d´ Santiago agora canta, deve-se a Sara. Foi ela que trouxe o crioulo para as nossas vidas, ou pelo menos para a minha. Era humilde ao ponto de não admitir o seu feito: “Não me sinto autorizada em interpretar a música de Cabo Verde e não digo que canto música Cabo Verdiana, aliás sou uma aprendiz da cultura cabo-verdiana (…) toda a minha escola de canto é outra, foi a escola americana” dizia em 2003.

De facto, o seu primeiro álbum foi um álbum de soul e gospel, mas Cabo Verde estava-lhe no coração apesar de só mais tarde aprofundar essas raízes.

Em 2009, quando foi operada a um tumor no cérebro, deram-lhe anestesia local e ela pôde acompanhar a sua operação. Foi-lhe pedido para cantar. O disco pedido pelos médicos foi o tema do festival. Ela disse que não. Eles pediram então a “Solta-se o Beijo”, um sucesso que ela partilhou com a Ala dos namorados. Não quis cantar nenhuma das duas – queria cantar uma cantiga das suas.

A minha admiração pela Sara Tavares deve-se acima de tudo a isto, quando todos queriam que ela fosse para um lado, ela disse que não e optou por fazer o seu caminho.

O mais fácil teria sido optar pelo óbvio, afinal quem consegue cantar whitney Houston pode fazer chorar as pedras da calçada para sempre, mas não era isso que queria. Seguiu o seu coração e soube encontrar a sua própria voz.

Sara cresceu em Almada, tinha a escola americana na voz e Cabo Verde no coração e nas veias. Foi nesta maravilhosa encruzilhada de influências que ela encontrou e traçou o seu próprio estilo.

Numa das playlists que criei e mais escuto é a cantora que mais aparece e a ela devo o facto de me ter feito abrir horizontes. Era única. Tinha a doçura na voz e a pureza no coração.

A sua morte foi um choque para mim, mas pessoas como ela nunca morrem.

A sua obra e a minha admiração vão ser eternos.

Autor

Tradutora por habilitação, professora por profissão, viajante e curiosa pelo mundo por opção.