Artigo disponível em áudio, narrado pela autora:
O Zé nasceu em Oleiros, em 1923, com nome de mãe mas sem nome de pai numa família pobre, talvez pobre demais mesmo para os padrões da época. Seriam naquela casa apertada de pedra quatro crianças e uma mãe, que desamparada terá feito o melhor que podia pelos seus quatro filhos de pais “descoincidentes”. Três rapazes e uma rapariga a que sempre ouvi referirem-se como a mana “entrevadinha”, e que terá morrido ainda na adolescência.
O Zé tinha obrigações familiares a cumprir desde muito cedo: a mãe tendo que ficar a cuidar da sua irmã não podia trabalhar fora de casa, e assim se predestinava que aos mais crescidos caberia o papel de provedores, junta-se a isto que por viverem no centro da vila não tinham horta, assim, ao Zé e ao João cabia trabalhar para outros a troco de pouco mais do que comida, não sei se o faziam resignados da sua condição, mas sei que faziam com sentido de dever. Para o Zé, a casa do padrinho era destino ainda de madrugada, carregar bilhas de água, mato para a cama dos animais e lenha para aquecer cozinha e casa. Não sei como acordava, sei que o sol ainda haveria de vir longe do horizonte e já o Zé menino, estava a cumprir as suas funções. Percebeu cedo que a instrução seria a sua única possibilidade de fugir a uma vida mais ou menos miserável, e assim se apresentou na escola da vila, sem que a mãe soubesse, também não sei como tratou da sua inscrição, se é que havia, mas sei que fez parte da instrução primária “às escondidas” da sua mãe, que quando confrontada com o pedido de autorização da Professora para que o deixasse fazer o exame da quarta classe, ainda o açoitou dizendo-lhe que o tempo em que ia à escola haveria de estar a trabalhar o dobro para trazer mais qualquer coisa para casa. Sei hoje, que estas palavras vinham de um lugar de profunda miséria da alma e de um apurado instinto de sobrevivência e não de um lugar de desamor.
O Zé andou descalço até aos catorze anos, altura em que pôde, juntando algumas moedas e umas solas que o padrinho lhe deu, fazer então os primeiros sapatos. Até lá era assim, de pés nus no chão frio e nos Invernos rigorosos com a neve a bater-lhe nos joelhos que fazia todas as tarefas que lhe cabiam. Não terá brincado porque não havia tempo para isso, foi de criança a adulto em muitos menos passagens da terra à volta do sol de que seria desejável.
Contava que em miúdo não gostava de ervilhas, nem das tortas nem das outras, e que andou com uma marmita delas cozidas com um pequeno pedaço de toucinho e de pão mais de quatro dias, os últimos comeu-os logo no primeiro dia, as ervilhas iam e voltam-lhe na marmita que a mãe lhe preparava, não as comia, mas faltava-lhe a coragem para as deitar no chão na esperança que a mãe acreditasse que as teria comido, porquê? Porque sabia o que lhe custava a trabalhar para aquelas ervilhas, o respeito pelo que se ganha com o trabalho não se deita ao chão! Ao quarto dia e já com a barriga a dar horas, fechou os olhos e engoliu as ervilhas, por falta de alterativa, sabia que até que a marmita voltasse vazia para casa não haveria mais o que comer.
Era sócio ou assinante, não sei precisar os termos, da Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian e os livros chegavam-lhe numa carrinha mas não saiam das prateleiras, saiam antes debaixo do banco do condutor e sei que as capas dos livros que lia não correspondiam aos seus interiores, que as leituras que lhe interessavam estavam proibidas, e que desta forma leu autores impensáveis para a época e para o lugar, como: Nietzsche, Marx, Raúl Proença, Torga, Redol, entre outros.
A tropa foi a sua primeira libertação, ao fim de semana caminhava de Castelo Branco a Oleiros, (regressava domingo já à noite e a pé, novamente) por entre fragas e vales, hoje são aproximadamente sessenta quilómetros para cada lado…- Encurtavas o caminho, avô? Acompanhado por lobos e raposas, acendia cigarros de barbas de milho, na esperança de que os lobos não lhe chegassem. Por lá foi condecorado e o único a montar um cavalo que atirava todos os outros ao chão, alheio a patentes, o animal só obedecia ao Zé. Contavam-lhe que quando ele ia passar o fim-de-semana à terra o cavalo não comia.
Aprendeu música na tropa e tocou clarinete na Banda Filarmónica de Oleiros, sempre gostou de música e tinha uma intuição sonora, que infelizmente, não herdei.
Namorar a sua Maria foi inicialmente uma casualidade, mas que cedo se converteu num amor-devoto, tendo corrido uma noite inteira a buscar gelo no meio de uma forte tempestade para lhe acalmar a cicatriz da operação ao apêndice! Casaram sem vestido branco e quase sem festa. Assim que pode saltou para Lisboa, passou por vários trabalhos e pela falta dele: trabalhou num armazém de petróleo e de azeite, foi motorista de autocarros, distribuiu pão e mantimentos pelas cantinas sociais, escolheu desviar uma camioneta numa apertada rua de Lisboa por falta de travões e de colher várias pessoas, escolheu antes embater numa montra de uma loja ainda fechada. Assim que pôde foi buscar as suas Marias, para junto dele. Era ele quem vestia e levava à escola a sua menina, que lhe penteava o cabelo em tranças apertadas e lhe punha um laço. Mais tarde, recolhia por todo o país os duplicados dos boletins do Totobola, transportou dinheiro para depositar. Quando pôde foi buscar os sobrinhos para estudarem em Lisboa, dizia que o fez para que cavar a terra fosse para eles uma opção e não uma obrigação.
Tinha licença e porte de arma e trazia consigo, por força desta profissão, um revolver que nunca disparou e que no dia em que se reformou, foi entregar.
O Zé fez várias formações ao longo da sua vida: jardinagem, tinha uma paixão por flores e árvores, tenho a certeza que lhes sussurrava coisas doces e meigas, cresciam todas felizes. Era um handyman: das suas mãos cresciam caixas em madeira, sabia fazer instalações eléctricas e arranjava tudo, deitar fora era a última das suas opções, tal como as ervilhas.
O Zé do Totobola é o meu avô, que faria este ano cem anos, corrijo: que faz este ano cem anos e por quem tenho uma admiração profunda e um orgulho que quase não me cabe dentro do peito, pelo menino que foi e pelo homem gigante de quem tivemos o privilégio de descender. Tenho a sorte de ter podido escutar estas e outras estórias pela sua voz e mais, dos meus filhos terem também podido escutá-las. Aprendemos tanto contigo querido avô. As tuas roseiras do quintal estão vivas e dão flores. O teu clarinete está na sala junto aos teus discos e cassetes. És sempre lembrado e celebrado entre nós. Temos-te no altar maior, o do coração!








