Geral

ELES

Provavelmente nenhum dos dois se recordará do dia em que caíram nos braços um do outro, terá sido depois de uma dança qualquer em que se deveriam ter desatado, mas ao contrário, ficaram ali, talvez a música até já tivesse parado, mas eles continuaram, agarrados, a dançar, num mundo só deles, numa música que mais ninguém ouvia. Aquela era uma relação desigual nas idades, Ele mais crescido, alguns anos a mais que Ela. Ele era dali, Ela estava apenas de passagem.

Ela lembra-se dele acender um isqueiro Zippo nas calças de ganga, de achar aquilo viril e fascinante, lembra-se da pele dele, macia, da parte do pescoço onde ele não tinha barba, dos lábios carnudos e abusadores, de como Ele cheirava sempre bem, o cheiro do blusão preto de cabedal misturado com o perfume e a Dentyne de canela. Ele sabia muito das coisas da vida, Ela ainda não, Ela gostava dele. Ele também gostava dela.

Quando se viam, às vezes a muitos metros de distância, a primeira coisa que procuravam eram os olhos um do outro, o olhar, sempre o olhar. Podiam passar horas sem estar na mesma mesa ou no mesmo grupo de amigos, mas entreolhavam-se sempre.

Ele pedia-lhe várias vezes que se deixasse ir, que não parasse, que ia ser bom, enchia-a de beijos, Ela arrepiava-se, era bom, gostava dele, do que Ele a fazia sentir, queria-o, mas tinha medo e parava sempre, pedia-lhe que parasse também, Ele parava, reprimia a vontade e parava, sempre que aquela cena se repetia, Ele beijava-a na testa e apertava-a contra o peito.

Ela que acreditava no amor, que tinha lido todas as histórias de encantar, sabia reconhecer um príncipe, era Ele, sabia-o assim, de gestos delicados, gentil no trato, mas arrebatado no querer. O amor que Ela queria era romântico, mas a primeira vez tinha que ser especial, tinha que ser com alguém especial, num local especial.

Ela lembra-se dos momentos em que Ele lhe prendia todo o cabelo no alto da cabeça e a olhava nos olhos, sempre os olhos, um do outro, cheio de vontade, enquanto prendia o lábio de baixo cheio de desejo, Ela desembaraçava-se rapidamente das mãos dele no cabelo dela e abraçava-o. Ele fazia isto muitas vezes, talvez para lhe afastar o cabelo dos olhos, da cara, para a poder olhar, sem obstáculos, talvez para a poder beijar uma e outra vez, sem parar, e logo a seguir procurar-lhe os olhos, para ver se também ardiam de desejo e de vontade. Sempre que estavam assim, ou no carro, ou encostados a um qualquer muro, Ela teimava em negar-se a si própria, aos dois esse prazer, afinal ela era uma miúda, as férias haveriam de chegar ao fim, Ela iria, Ele haveria de ficar.

Naquele verão andaram sempre perto, mas distantes, distantes dos olhares dos outros, perto entre eles, Ela observa-o enquanto Ele dançava tímido, contido. Ela sabia que quando não dançavam juntos, Ele se afastava para a ver melhor, ainda que de longe, para não se denunciar, para que os outros não percebessem como se fosse possível não perceberem, ou até talvez para refrear a vontade de lhe sentir o cheiro da pele, dos cabelos, e de lhe por a mão no pescoço, ou na cintura e de lhe sussurrar ao ouvido, coisas como: -“E se fossemos apanhar ar, sair daqui?!”, mesmo quando já estavam fora, ao ar livre. Ou então de a apanhar distraída num movimento mais largo de braços, para a agarrar pela cintura e a puxar para si.

As mãos dele quase nunca estavam quietas, ou lhe faziam festas, ou a provocavam, ou a apertavam, ou lhe contornavam o rosto. Os beijos eram longos e por vezes aflitos, em que os lábios ficavam presos pelo último pedaço de pele, aquele que teima em não se descolar, mas também havia beijinhos de passarinho, com barulho, repenicados, ou beijos de esquimó, só com o nariz. Ele aquecia-lhe as mãos nos bolsos do próprio blusão enquanto estavam sentados, até que Ele terminasse mais um cigarro e a encantasse com as bolas de fumo que fazia.

Por vezes Ela escapava-se-lhe sem folego, com os olhos revirados de prazer, com o cheiro dele preso às mãos, ao pescoço, ao cabelo, com o queixo e a cara marcados pela barba dele. Ele aceitava, anuía, respeitava e desistia, Ela repetia lamuriando: “- A primeira vez quero que seja especial, num lugar mágico!”

Combinaram que no dia seguinte sairiam de carro, Ele sussurrou-lhe de volta: “- Amanhã levo-te a ver sol tomar banho!” Assim foi, saíram com o dia a meio, andaram muitos quilómetros, depois de uma das muitas curvas, ele parou o carro, tirou-lhe os óculos escuros e disse-lhe: “- Fecha os olhos, só abres, quando eu disser” Ela que não era muito obediente, acatou. Ele foi buscá-la ao outro banco do carro, com uma mão tapou-lhe os olhos e cingiu-a si, pela cintura, contida para que lhe pudesse sentir o descompasso cardíaco, desceram pelo meio de pedras e ervas, Ela agigantava-se, ria-se de nervoso miudinho não sabia onde punha os pés, não era boa a confiar. Quando pararam, Ele destapou-lhe os olhos, Ela procurou os óculos escuros, e ali estavam, os dois, perdidos numa qualquer margem do rio. Estenderam-se no chão, a apanhar sol, Ele perguntou-lhe: “Sempre vais embora, amanhã?” Ela respondeu-lhe que sim, que o verão estava a acabar. Sem mais nenhuma palavra dita, sem saberem como, caíram na água, a verdade é que lá estavam. O sol que não podia esperar por eles, baixou-se e mergulhou, deixando apenas refletida uma palete de cores e brilhos na imensidão da água. Submersos, rodeados de água, entre mergulhos e beijos Ela disse-lhe: “- Este lugar é mágico e tu és especial!”

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.