Geral

“Senhor Nuno, posso esconder-me no buraco do grão?”

Tive a sorte de crescer numa vila e da sapataria da minha mãe ser mesmo em frente a uma mercearia/drogaria/papelaria, a loja do Sr. Nuno. O Sr. Nuno era um senhor simpático e embora lhe fizéssemos a cabeça em água tinha muita paciência para nos aturar. E quando digo “nos aturar” refiro-me às crianças de toda a rua, e não éramos poucas. Entrávamos a correr por um lado da loja e saíamos pelo outro, abalroando quem ou o que se impusesse à nossa frente. A loja tinha um corredor grande e tudo estava perfeitamente dividido e arrumado, de um lado a mercearia, do outro a drogaria e os produtos de limpeza e havia ainda umas prateleiras para os tecidos e têxteis. Quando jogávamos às escondidas o Sr. Nuno deixava-nos esconder atrás do balcão ou mesmo nas torvas de madeira do feijão e do grão, que já não utilizava, pois a venda a granel tinha passado de moda. Às vezes até dizia uma mentirinha aos nossos amigos, protegendo-nos no nosso esconderijo: “não está aqui ninguém!”

A confusão por vezes era tal que se chateava connosco, mas era por pouco tempo, pois rapidamente nos chamava para nos dar uma pastilha ou rebuçado que tirava de uma estrutura de vidro que rodopiava no balcão. E nós pedíamos-lhe desculpa várias vezes ao dia, não fosse ele ficar triste connosco. 

Cresci e fiquei sempre com um carinho muito especial pelo Sr. Nuno. Era recíproco, acho.  E hoje dei por mim a recordar o Sr. Nuno e a sua loja, depois de ter ido a uma grande superfície, o que felizmente faço pouco. 

As razões para as minhas parcas idas a estes locais são muitas e passo a enumerá-las:

– Chego sempre a casa cansadíssima;

– Quero comprar um pacote de leite e papel higiénico e saio sempre do supermercado com compras que decerto não preciso e com menos euros na carteira;

– As promoções são uma ilusão, mais caras umas coisas, menos outras. E o “tem cartão?”, pontos e cromos dão-me volta à cabeça, e nada disto é simples…;

– Para além de sacos pesados de compras que tenho que carregar, a minha carteira fica cheia de papéis (e estou cada vez a tentar reduzir mais o seu uso);

– Não se conseguem fazer compras a granel (felizmente a moda voltou!);

– Não conheço a Sra. Ou Sr. que me atende e não recebo um: “Olá Dª Anabela” que recebo no talho do meu bairro;

– São locais barulhentos;

– As 500 hipóteses de amaciadores da roupa e a minha vontade de decidir sempre pelo melhor fazem-me perder uma boa meia-hora só nesse corredor até tomar uma decisão.

Assim, e desde há algum tempo que prefiro as lojas de bairro, a mercearia, o talho, a peixaria. Salvo raras exceções, são estas que utilizo. Também estou a começar a ir a feiras e mercados, onde os produtores vendem diretamente os seus legumes e frutas, sem intermediários nem custos acrescidos. E sabem que mais? Os vendedores lembram-se de nós de semana a semana, no meio de tantos clientes. Conhecem-nos os gostos e as preferências. Olham-nos nos olhos e sorriem. Alguns ainda dizem uma piada. Outros dançam ao som da música que passa num rádio ali ao lado. 

Os produtos regionais compro-os sempre em Oleiros. Os presentes de Natal e outros são comprados nas lojas de xisto e nas lojas que vendem queijos, azeites, licores, aguardentes, filhós que todos conhecemos. Há uma legião de amigos meus que adoram o azeite e a aguardente de medronho de Oleiros. Poupo tempo e dinheiro e ajudo a economia local. Todos ganhamos.

Durante esta pandemia fecharam muitas lojas de comércio local um pouco por todo o país.
Só na baixa de Lisboa, e segundo a Associação de Comerciantes, fecharam 115 lojas desde o início da pandemia até Abril deste ano. E estas são as contabilizadas. Outras não o são. O comércio local precisa de todos nós. E mesmo nas cidades, acreditem, há outros “Srs. Nunos” simpáticos por aí…procuremo-los.

Autor

Tem uma adição desde que se conhece: a curiosidade. Adora viajar. E fá-lo muitas vezes, principalmente dentro da sua cabeça.