Geral Opinião

O João pintou o quadro do Café Livreiro

Todos sabemos que quando se trata de apreciar as obras de arte dos filhos, os pais são um bocadinho chalupas. Ora o filho lhe parece tocar ou cantar tão bem, ou pintar belissimamente… Pois. Embora o que vou escrever não trate de qualquer deslumbramento artístico, pareceu-me bem a ressalva. Vamos a isto.

Ontem, a veia de Henri Matisse e Gustav Klimt do meu filho João, apareceu a giz, de repente, num quadro preto que recebeu no Natal. Aqueles rabiscos espontâneos podiam ser só parte de um episódio curioso, a relembrar a collage francesa das minhas cadeiras de Movimentos Artísticos Contemporâneos, Estética e de História da Arte, na universidade, mas foi mais que isso: era a memória – e lá vem outra vez a memória – de um sítio especial.

Há um café no meio da vila que tem, pendurada numa parede, uma reprodução de uma obra de Matisse, que ilustrou passivamente muitas noites e muitas conversas ao longo do último par de décadas. Muito riso, muito desabafo, muito arrufo político, religioso e desportivo. Muita bebedeira. Tudo, ignorando a presença da reprodução de uma obra com referência obrigatória nos livros de História da Arte.

É curioso que, agora que quero escrever sobre os supostos contrastes e incompatibilidades, entre a peça digna de um museu e o lugar mundano de convívio, percebo o mar de preconceitos em que estou imediatamente a afogar-me. Acho-me atento a estes preconceitos e sem querer, estava a colocar a perspectiva errada sobre o assunto. Vendo bem, não vejo ironia. Há, talvez, mais ironia no surgimento da ideia da fruição das artes restrita a um grupo de privilegiados. É que os homens das artes da viragem dos séculos XIX-XX estão associados a ambientes boémios – não só pintores, mas escritores, poetas, escultores, músicos… Não há nada de errado nisto de ter uma réplica (nunca o original, naturalmente, a bem da segurança e conservação de um bem histórico) num espaço de “desatenção artística”.

Nestes tempos, estes eram os espaços onde, em Paris, em Viena, em Berlim, em Lisboa e um pouco pelas capitais de todo o mundo apareciam os movimentos artísticos que marcaram definitivamente a humanidade e serviram de fundação para a cultura estética que temos hoje.

Vendo bem, não há mesmo qualquer ironia em ter uma reprodução de uma obra de arte num café de uma vila do interior do país, o que sabota um pouco a ideia original para este texto. E é bem mais interessante do que a tendência batida das réplicas de sinalética da Route 66 e ícones americanos da cultura pop. É bom trazer boas referências estéticas para o dia a dia, e – isto sim, ironicamente – nos dias de hoje parece ser mais necessário que nunca.

Autor

Metade músico, metade produtor, metade apaixonado por viagens, metade inquieto profissional.