Geral

Limbo

Costumo dizer que sou uma rapariga simples do campo. Sei que não é verdade, mas pelo menos a parte do campo é verdadeira. Cresci no meio de serras, tenho o verde dos pinheiros entranhado no corpo. Em miúda era aquilo a que se chama um bicho do mato, mas isso não me impedia de oferecer flores campestres aos que me eram mais próximos.


A minha vila tem sete açudes à sua volta e foi neles que aprendi a nadar. O da Lameira é o que imagino possa ser o mais próximo do paraíso. Nas imagens que ilustram o paraíso, é comum verem-se coelhinhos, ovelhas e crianças felizes. Ali, é provável que se encontrem lontras, raposas ou ginetas e as crianças felizes, claro. Seria então uma versão alternativa do paraíso, bem mais “cool”.


Mas já não lembro da última vez que pude ir ao meu campo, àquele que me viu crescer. Nem sei quando lá poderei voltar. Assim é a vida em tempo de pandemia e confinamentos e proibição de circular ao fim de semana. Não me queixo, sei que tem de ser assim, mas caramba e a falta que me faz?


Para já nem falar de não poder abraçar os meus. Que raio de tempos estes… Quando no futuro inventarem uma máquina do tempo, é garantido que ninguém vai querer viajar para os anos de 2020/2021. Faço um “all in” nessa aposta, já!


Já se sentem os cheiros da Primavera e tenho a certeza de que os campos estão agora cheios de flores. O bom do campo é que ele deixa crescer as suas coisas sem certezas de que alguém as vá ver e é o meu caso. Não vou ver nada, mas sei que está lá.


Dia 11 vão-nos apresentar um plano. Por mais que queira que a minha vida volte ao normal, já sei que o que quer que venha aí, tem de vir com calma porque já sabemos que se nos dão uma mão, levamos braço e levamos tudo à frente. A verdade é que vivemos num limbo e onde todo o cuidado é pouco.


A definição de limbo para a religião é “lugar onde estão as almas sem batismo, temporariamente afastadas de Deus, até que sejam perdoadas do pecado original” e assim é! Aguardamos todos, como que em “standby”, que alguém nos dê permissão para voltarmos aos lugares que nos fazem felizes!

Autor

Tradutora por habilitação, professora por profissão, viajante e curiosa pelo mundo por opção.