Aqui há atrasado, quando dava aulas num centro de formação a adolescentes surgiu uma discussão enorme por causa de algumas expressões onde muitos não vêem qualquer maldade, mas que eu não uso, jamais. Alguns ficaram ofendidos com o que lhes disse, mas era o que achava na altura e mantenho. Passo a explicar.
Os miúdos tiveram de fazer uns trabalhos sobre problemas da sociedade para apresentar na aula. Um dos grupos escolheu o racismo e enquanto andavam a preparar as coisas para a apresentação, um disse ao outro: Então e eu não falo? Sou preto, queres ver?
Eu ouvi e deixei-os apresentar e nada disse. Guardei para a parte do debate e perguntei-lhes se não achavam que aquela pergunta tinha sido racista. Caíram-me todos em cima, justificando com a célebre “Eu não sou racista, eu até tenho um amigo que…”.
Expliquei-lhes que ao dizer aquelas coisas estavam a ser racistas, claro e que bastava pensar no que estava por trás de cada uma delas para perceber e que a justificação que me deram ainda piorava mais a situação: “Eu até”, a sério?!
Nos últimos dias, vimos numa manifestação, o nível seguinte desta expressão – agora temos o “Como posso ser racista se até adoptei uma criança angolana?”. Nem queria acreditar nos meus olhos, tinham conseguido descer ainda mais baixo o nível e sabe-se lá onde vamos chegar…
Cresci a ouvir as anedotas do Samora Machel, cresci a ouvir dizer que tanto se aperta a mão a um branco como o pescoço a um preto e as pessoas riam. Pergunto se alguma vez pensaram realmente no que lhes estava a sair da boca. Os meus alunos disseram-me que usavam esta expressão muitas vezes, mas que isso não queria dizer nada, que era só uma piada. Pois eu acho que devemos pensar e acima de tudo devemos ser selectivos no que deixamos que saia da nossa boca. Podemos desconstruir estereótipos, mas a ofensa é escusada e deve ser evitada.
Dizer que não existe racismo em Portugal é andar ceguinho e surdo. O racismo está enraizado na nossa cultura e a nossa língua está cheia de exemplos disso.
A língua está em constante evolução, evoluamos com ela.
Eu até tenho um amigo






