Crónica

Tenho saudades de dizer-te que não quero estar contigo

Olá amor.

Eu sei que estás aqui ao meu lado, mas as saudades não se descrevem com diálogos, mas com cartas, por isso escrevo-te. 

Tenho saudades de não estar contigo, ultimamente a nossa vida tem-se cruzado imenso, e isso a partir de certa altura tornou-se um problema, que passo a explicar.

Como sabes, um amor completo, é aquele que espoleta em nós os mais intensos sentimentos. Arrisco-me a dizer que a literatura ocidental deve ao desencontro de amor a sua mais prolífica inspiração. 

Eu vivi intensamente as vidas de Helena a Beatriz, de Karenina a Blimunda, todas com desencontros pungentes e sofridos. Enquanto ressonavas ao meu lado.

 Afastamentos violentos, por motivos religiosos, políticos, ideológicos, enquanto vias o benfica, e dizias que “eram todos uns ladrões”.

Tenho saudades de ter saudades de ti, sei que vivemos num T0 com 15 metros quadrados durante esta pandemia, mas se passasses uma temporada na casa de banho, talvez eu sentisse necessidade de te procurar.

Depois, antes de estarmos juntos, eu voltarei a ter saudades de não ter saudades de ti, e depois mataremos todas as saudades. Bem, todas não, porque nessa altura estarei novamente com saudades de ter saudades de ti. 

E as saudades que tenho de dizer-te que não quero estar contigo? Nem imaginas. E depois leio a definição de saudade no dicionário e não percebo nada. Talvez a melhor definição de saudade seja a sua antítese. 

O ser humano é ávido de ter saudades do que tem. Desaparece daqui que quero ter saudades! Amaremos ter saudade da saudade que não temos, sofreremos ansiosos pela saudade que temos. 

É isso, se os gregos soubessem que na ponta mais ocidental da Europa, um povo criaria uma definição que explicasse a essência da vida numa palavra, não perderiam tempo com tertúlias sem vinho.

Que saudades eu tinha quando não conhecia o significado de saudade. Eu acordava, ia até ao rio, falava contigo, vinha para casa, e aí tinha uma sensação estranha, e pensava que era do jantar, adormecia, e no dia seguinte nadávamos juntos novamente, era incrível. Eu não sabia nada do mundo… tenho saudades de não saber.

Já agora, quando leres isto chega-te para lá, estou quase a cair da cama. 

Autor

Gosta de tocar piano, ler e escrever. Nasceu na Sertã e mora actualmente em Gaia.