Geral

Solidão-Crisálida

Nascemos sós e morremos sós, é um facto que me faz pensar no papel da solidão na vida dos Homens. Acho importante saber e conseguir estar só, não no sentido de existir em exclusão em relação aos outros e ao mundo (os outros e o mundo são fundamentais), mas sim, estar só no sentido de existir consigo. Eu posso estar temporariamente só e não ser uma pessoa desamparada, mas também posso estar sempre acompanhada e ser, apesar disso, uma pessoa em total desamparo. Neste ponto de vista, podemos dizer que há aquela que é a solidão profícua e aquela que é a solidão destrutiva. Estas duas formas de vivenciar um tempo sem companhia, são, não poucas vezes, confundidas e, por consequência, a ideia geral sobre a solidão tem sido demonizada. A prova disso é visível na necessidade que temos de procurar distracções sempre que estamos exclusivamente com o nosso íntimo, é visível no desejo constante de fuga em relação a esse desconhecido que somos nós. Talvez o perímetro sombrio da solidão se alastre ainda mais porque  nos lembra a morte, a solidão da morte (e tudo o que tentamos fazer, em todos os actos heróicos ou quotidianos, é fingir que nunca morreremos, ou esquecer, a todo o custo, a certeza de que morreremos sós). Apesar disso, acredito que um certo nível de insulação pode ser deslumbrante, quando tomado como espaço para descobrir quem somos quando o outro sai de cena. Acredito que este modo de solidão nunca surge como uma sombra, surge em jeito de  luz, aparece como  uma tocha que transportamos para o nosso íntimo cavernoso e que nos permite ver as mil faces que temos, é a claridade que revela quais rostos usamos teatral ou honestamente perante os outros, quais escondemos, porque nos envergonham, quais negamos, porque nos assombra a sua monstruosidade. Esta solidão vem revelar a face na soma de todas as faces. O mundo contemporâneo, com todos os seus estímulos de interacções e distracções virtuais, tende a desviar-nos da experiência de estar de frente com o nosso semblante oculto, afasta-nos da caverna da consciência, mantém-nos, portanto, confortavelmente à superfície. Habituados à fuga, ao gesto mecânico de fazer rolar as telas infinitas dos ecrãs, alimentamos a alienação em relação a nós mesmos e passamos a existir de forma mimética, reproduzindo, não o que temos por dentro, mas espelhando o que está do lado de fora. E, porque os que estão do lado de fora muitas vezes fazem o mesmo, alicerçamos a própria vida numa realidade composta de milhões de outros espelhos que reflectem o reflexo do reflexo. Para mim, quando já não sei ver as diferenças entre imagens reais e reflexos, torna-se urgente regressar ao solitário casulo, ficar parada na caverna escura com o facho em chamas.  Fechada nessa cápsula sem forma, penso em muitas coisas, por exemplo, que a natureza é sempre uma imagem verdadeira e por isso, a partir dela é possível tentar perceber tudo. Sobre a solidão, a natureza revela-nos que se trata de um tempo semelhante àquele em que a lagarta existe na sua crisálida, é parte do momento sedoso em que o bicho rasteiro, enovelado sobre si mesmo, começa a sua conversão para um animal capaz de voar. A natureza também nos ensina que entre os Homens e os bichos não há assim tantas diferenças, e se a solidão for, de facto, a  luz que ilumina a caverna, se fizermos da descoberta das mil faces o fio de seda que nos cobre, depois de uma metamorfose, talvez possamos ser capazes de um voo estrondoso.

Autor

É feliz com a cabeça a flutuar em palavras ou as mãos mergulhadas em tinta.