Crónica

O dia em que nos desmascararmos, a festa do abraço

Tenho por estes dias a sensação que nos governamos afetivamente de duodécimos, num baile de máscaras que ninguém pediu, que ninguém desejou, deficitário, preventivo e necessário é certo, mas desmoralizador. Pela minha parte sinto que precisamos de aprovar um orçamento afetivo que nos recoloque no sítio certo. Caramba, precisamos tanto de nos reconhecer no toque e no cheiro!

Se por um lado aprendemos a falar com os olhos, há-os hoje mais expressivos que nunca, assim como quem perde um dos sentidos e apura outro, conheço pessoas que tinham olhares amorfos, e que hoje são mais vivazes, por outro, paradoxalmente parece que ouvimos pior, e até que vemos pior. Faz-nos falta a leitura integral do rosto dos outros, com o binómio olhos-boca, que juntos exprimem quase tudo.

O défice dos afetos: E as saudades do toque e do abraço? As cotoveladas, os pontapés ou as vénias que damos/fazemos uns aos outros, por estes dias, não substituem nem o toque nem o cheiro dos nossos amigos, dos primos, dos tios, dos avós. Receio que no final de tudo isto optemos por ficar com estes hábitos, seja por precaução, por boas intenções, o que for, tenho receio e fico triste se, lá à frente, depois do arco-íris, optarmos pela higienização das relações.

A falta de horizonte temporal para o fim, como a cenoura que se coloca à frente do asno para que este persista e não desista, a falta de sabermos quando tudo isto vai acabar, encanita-me, dificulta-me a perspetivação, o mote “Vamos todos ficar bem” não me assenta. Claro que não vamos ficar bem, muito menos “todos”, e os que entretanto morreram?! Sim, bem sei, que morrer é consequência de viver, que vamos todos morrer, mas morrer acompanhado, mimado, abraçado e beijado, é uma coisa, morrer só, é outra. Na verdade morre-se sempre sozinho. Mas morrer sem o toque, sem aconchego, é duro, será para quem vai, e talvez mais para quem fica. Quem fica, terá que viver com desapego dos afetos, de não ter mimado, de não ter aconchegado. E os que ficaram e a quem não podemos abraçar nem reconfortar pela perda? Há meses que não nos abraçamos, que não abraçamos aqueles de quem gostamos, os nossos mais crescidos, estão mais desamparados que nunca, e isto é paradoxal, na medida em que não abraçamos, nem beijamos para os proteger.

E os bebés que nascem e que não são nem abraçados, nem beijados, pela família mais alargada, sim, acredito que há um direito primitivo e natural, que faz parte desse elo familiar, que impõe que quando nasce um bebé, este seja abraçado, beijado e até cheirado pela sua tribo, são reminiscências da caverna. É fundamental que assim seja, bom, era fundamental, porque agora fundamental é proteger as novas criaturas e dar-lhes esta assepticidade segura de conhecer a família ao colo dos progenitores, com as tias, os primos, os avós, todos mascarados e ao longe. E se crescem inaptos para os afetos mais alargados?

Tenho um amigo que valoriza mais o abraço que o beijo, a verdade é que os abraços dele são beijos de corpo inteiro, ele agarra-te, encosta-te, encosta-se e deixa-se ficar, ali vários segundos, como é grande, ainda te aconchega a cabeça nos ombros dele, faz-te festas nos cabelos e nas costas, acho até que te cheira o pescoço, estranhei aos primeiros abraços, terei até querido desprender-me desses abraços, achei demasiado, ele sussurrou: – Calma, ainda não estás abraçada o suficiente.
E bom, quando finalmente me soltei daquele primeiro abraço, só consegui dizer-lhe: – Bolas, os teus abraços são pornográficos! Seguiram-se uns minutos de conversa sobre o toque, o abraço, a libertação de endorfinas e os batimentos cardíacos. Falou-me do beneficio terapêutico dos abraços, numa espécie de calmante natural. A verdade é que em mim, primeiro estranhou-se, depois entranhou-se!

E se combinássemos que depois do arco-íris, no dia em que nos desmascararmos faremos uma grande festa do abraço?… Estou lá!

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.