Crónica Geral

Mastodontes em cima da língua

No outro dia, uma amiga ligou-me para dizer que tinha ido buscar um dicionário empoeirado para ver o significado de algumas palavras que apareciam no meu último livro. Ela não viu, mas do lado de cá do telefone, fui invadida por um sopro de alacridade e a minha boca sorriu. Os meus lábios curvaram-se satisfeitos porque a minha mente percebeu que estava a acabar de cumprir o seu plano de acordar e libertar palavras adormecidas.

O meu livro fala de alguém que está preso dentro do seu corpo e eu pensei que era bonito contar esta história usando vocábulos presos dentro de dicionários. Palavras adormecidas são isso mesmo: palavras aprisionadas dentro de cartapácios vocabulares, uma espécie de bichos em vias de extinção, entristecidas dentro das jaulas de um zoo com pouquíssimos visitantes.

Acredito que a riqueza da linguagem nos ilumina o pensamento, por isso, quanto mais extenso o vocabulário, quanto mais amplo o horizonte, maior será a capacidade de uma pessoa se exprimir, reflectir, compreender o outro e interpretar o universo que a rodeia. Assim sendo, gosto de imaginar que as palavras são tochas: as palavras acordadas são tochas acesas, as palavras adormecidas são tochas apagadas.  Imagino os escritores como acendedores desses archotes. Admiro todos os autores que ateiam vocábulos, pois, quando os leio, sinto que clareiam um pouco mais a minha própria forma de ver e sentir o mundo. Quando sou eu a acordar palavras adormecidas, imagino que também desperto uma chama, uma luz que passa de boca em boca, de texto em texto. Gosto desta imagem, pois quanto mais luzes e tochas acesas, mais fulgurante poderá ser o caminho dos Homens. E que linda e poética seria a imagem de todos nós, todos os dias, a andar por aí a acender palavras-estrelas na boca uns dos outros. Para os que preferem imagens divertidas, imaginem-se a entrar nesse zoo de animais raros, imaginem a diversão que seria soltar bichos extravagantes das jaulas, vê-los à solta por aí a passear como mastodontes em cima das nossas línguas.

Autor

É feliz com a cabeça a flutuar em palavras ou as mãos mergulhadas em tinta.