Crónica

Faltam-nos as palavras, ou sobram, sei lá…

As palavras faltam-nos, ou sobram, nem sei. Assistimos incrédulos à guerra em direto, não fosse tão trágico, até poderia ser cómico, como o Solnado dizia: Vamos lá ver como está a guerra, hoje! Não sei se por ser mais perto do que é habitual nos comove mais, esta é na Europa, aqui ao lado, as outras são lá longe, afastadas por mares, ou por oceanos, pregadas por outras religiões, por pessoas que se vestem de forma diferente, esta é aqui, no Velho Continente, que gosta de apregoar democracia e liberdade com a boca cheia da abastança que nos é tão familiar e que por isso julgamos garantida.

Gosto muito de um título de um livro de Manuel Vilas: Em tudo havia beleza. Porque também acredito que há, ou pode haver beleza em quase tudo, depende dos olhos e da análise mesmo nas narrativas conflituosas pode haver beleza, mesmo nos fenómenos mais extremos da vida, como na morte: há a beleza do final, daquilo que se viveu, do que se cumpriu, das paixões que se concretizaram, nas tempestades também há beleza: a do recomeço, a da bonança, também no fogo há beleza, se assim podermos olhar as chamas e as cinzas, a que vem depois, porque há esperança! São narrativas que podem ser poéticas e onde se podem construir finais felizes. Mas numa guerra não, não há beleza, é impossível, porque é sempre ignóbil. Qualquer que seja a sua origem, as suas motivações, nem as Santas foram guerras menos ignóbeis por isso. Adjacente à guerra está sempre uma soberba, uma supremacia de alguns sobre outros, nada legitima estas vontades. E todos aceitamos as frases que lemos como válidas: Se os que decidem fazer guerra fossem lutar, podíamos estar todos tranquilos, porque há em quem decide fazer uma guerra uma cobardia absoluta. Uma surdez e uma cegueira infinitas.

Enquanto por aqui acordamos, tomamos café e seguimos para o trabalho, podemos ligar e desligar do conflito. Ali, há quem fuja para se proteger, quem tenha que pegar em armas sem nunca o ter feito nem sequer como treino, sem qualquer preparação. Os homens ficam, as mulheres vão e levam consigo as crianças e às vezes os velhos também, ninguém tem reencontros garantidos, entre a desesperança hostil do conflito e a fuga sem qualquer garantia de chegada, haverá desânimo e desalento certamente. Aquilo que ali se vive é-nos inimaginável, por mais que tentemos, por mais empáticos que sejamos. Assistir não é viver, porque não se cheira, não se ouvem os gritos, não se arfa de medo, não se sente o coração bater nos ouvidos, nem os estilhaços, nem os fragmentos a caírem-nos em cima, nem a boca a saber a ácido metálico, nem o nariz a cheirar pólvora, não se sente o descompasso, isso não é sentir na pele, nem com a pele.

Numa situação destas, pergunto-me: -O que se coloca numa mala? O que colocam nas malas as que partem com filhos ao colo e pela mão, para longe, sem saberem para onde? E os que partem de armas nos braços para defender a sua terra, para se defenderem, o que carregam nas mochilas às costas? Muito mais do que o peso que podem transportar e que há-de ser-lhes insuportável. Desconfio sempre que mais do que o que é preciso- sei lá o que isso é- carregam a vida toda, a sua e a dos seus nessas malas, desconfio que carregam passado, sem presente nem futuro. Separam-se de si e dos seus, adiam sonhos talvez irremediavelmente para sempre, ou para nunca mais.

A nós que assistimos, restam-nos ou sobram-nos as palavras, nem sei. Sobram: Porque com elas nada se faz. As palavras dificilmente mudam o mundo num contexto como este, onde os esforços diplomáticos são isso mesmo: palavras e já falharam, o que fazer com elas? Demonstrar a perplexidade, a incredulidade, a inutilidade disto tudo, a quem decidiu avançar com a força das armas e a demonstrar solidariedade aos que foram invadidos, não há duvidas que os nossos pensamentos são deles, estes dias.

Então o que nos resta quando nos sobram apenas as palavras, o podemos fazer? Mostrar solidariedade, acolher se for o caso, enviar a ajuda possível, que vai apenas amenizar, ou tornar mais suave um caminho que estará irremediavelmente marcado.

A minha perplexidade para com o inaceitável, o inenarrável e o incompreensível- para Putin- segue assim ilustrada desta forma egocêntrica, desculpem.

Fotografia by José Melo

Autor

É inquieta, gosta de azuis, de estórias, de sons, de lugares, de pessoas com o coração no sítio certo, de ir e de regressar, de olhares e de afetos.